Blog em hibernação por tempo indeterminado.

Motivo: autor perdido no espaço.
Escrito por will robinson às 21h24
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Um espectador mais desavisado que fosse ver
Closer -- Perto demais por causa do elenco, que inclui Julia "Uma
linda mulher" Roberts, Jude "Capitão Sky" Law, Clive
"Rei Arthur" Owen e Natalie "Princesa Amidala de Star Wars"
Portman, talvez esperasse uma comédia romântica ou algo do gênero. Nada
mais longe da realidade: trata-se de um dos filmes mais adultos e complexos
sobre relacionamentos já realizado. Os diálogos de Patrick Marber, autor
da peça original, são cruéis e desmistificadores, os protagonistas se comportam
com uma sinceridade agressiva e cortante, o que paradoxalmente não significa que
eles também não mintam para os outros e para si mesmos, às vezes até sobre suas
próprias identidades. Não é à toa que tenho ouvido comentários de pessoas
decepcionadas com o filme, talvez por que esperassem algo mais romântico ou
menos cru. As pessoas não estão acostumadas a tanto realismo. A coisa mais
próxima a Closer que eu lembro de ter visto são os dois filmes de
Arnaldo Jabor sobre relacionamentos: Eu te amo e Eu sei que vou
te amar. Só que Jabor ia um passo além ao incorporar os delírios de
seus personagens ao relato, enquanto o filme de Mike Nichols, com toda a
sua teatralidade e sua ênfase nos diálogos, chega a ser doloroso de tão
realista.
E é só o que vou dizer sobre o filme, primeiro porque não me sinto capacitado
para uma análise mais profunda, e depois porque este é o tipo de filme que
quanto menos você souber antes de entrar no cinema, melhor. Então em vez disso
vou falar sobre John Mayer, um jovem cantor e compositor americano que
tenho ouvido muito atualmente. E qual a relação, vocês vão perguntar? Acontece
que várias das canções de John Mayer falam de relacionamentos em todas as
suas fases -- antes, durante e depois -- com uma maturidade surpreendente em
alguém tão jovem quanto ele. Recentemente assisti seu DVD Any given
Thursday, registro de um show em Birmingham, Alabama, no qual John a
certa altura, entre uma canção e outra, conta sua teoria a respeito da
importância das palavras num relacionamento, a qual tentarei reproduzir aqui de
memória, com minhas próprias palavras:
A IMPORTÃNCIA DAS PALAVRAS SEGUNDO JOHN MAYER
Pois é, tudo começa quando você consegue o telefone daquela pessoa em quem
está interessado e conversa vai, conversa vem, diz que gostaria de sair com ela
ou ele. "Eu gostaria muito", é a resposta. Bum! "Eu gostaria muito", essas três
simples palavras, te fazem levitar, te levam ao céu. Aí depois de algum tempo,
em outra conversa telefônica, você diz: "Estive pensando em você", e ouve a
resposta: "Eu também". Pronto! Agora "Eu gostaria muito" não significa mais
nada, agora o lance é "Estive pensando em você". Passa um tempo, você diz ao ser
amado: "Estou apaixonado por você". Vejam só: nesse momento você apaga "Eu
gostaria muito" e "Estive pensando em você", agora o que importa é "Estou
apaixonado por você." Depois de semanas ou meses você diz "Eu te amo", mas o
efeito dessas palavras dura pouco tempo, porque aí o outro ou outra começa a
perguntar: "Você me ama mesmo? então diz! então repete! então diz de novo!" e aí
você começa a exagerar: "Eu te amo mais do que tudo", "eu quero casar com você",
" eu quero te impregnar do meu amor", até que você se sai com essa: "Ah, eu
queria que o dicionário tivesse outra palavra ainda mais forte que AMOR, porque
AMOR já não consegue descrever a intensidade dos meus sentimentos por você!" Só
que quando o amor acaba começa "Eu te odeio", "eu te odeio mais do que tudo",
"eu queria nunca ter te conhecido", e aí as palavras já não funcionam mais.
Moral da história: nunca, mas nunca mesmo, subestime a importância de "Eu
gostaria muito..."

Why Georgia
(John Mayer)
I am driving up 85 in the Kind of morning that
lasts all afternoon just stuck inside the gloom 4 more exits to my
apartment but I am tempted to keep the car in drive And leave it all
behind
Cause I wonder sometimes About the outcome Of a still
verdictless life
Am I living it right? Am I living it right? Am
I living it right? Why Georgia, why?
I rent a room and I fill the
spaces with Wood in places to make it feel like home But all I feel's
alone It might be a quarter life crisis Or just the stirring in my soul
Either way I wonder sometimes About the outcome Of a still
verdictless life
Am I living it right? Am I living it right? Am
I living it right? Why Georgia, why?
So what, so I've got a smile on
But it's hiding the quiet superstitions in my head Don't believe me
When I say I've got it down
Everybody is just a stranger but
That's the danger in going my own way I guess it's the price I have to
pay Still "everything happens for a reason" Is no reason not to ask
myself
If I am living it right Am I living it right? Am I living
it right? Why Georgia, why?
Este blog entra agora em recesso até depois do carnaval, já que estarei
viajando em Recife e Maceió. Bons festejos de Momo a todos!
Escrito por will robinson às 20h42
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Assisti a produção francesa Novo numa pré-estréia, ano passado, mas deixei para comentá-lo quando entrasse em cartaz, o que só aconteceu agora em São Paulo. Graham (o lindo espanhol Eduardo Noriega, que foi um dos protagonistas do argentino Plata quemada) é um espanhol vivendo em Paris. Devido a um acidente que só será esclarecido no final do filme, Graham não tem memória. Assim como o protagonista de Amnésia, Graham não lembra do que aconteceu há dez minutos; mas ao contrário do personagem de Guy Pearce naquele filme, Graham também não tem nenhuma lembrança de quem é ou mesmo sabe seu verdadeiro nome. Sua vida é um eterno "agora", trabalhando no departamento de cópias de uma grande empresa e sofrendo uma espécie de abusos sexuais consentidos por parte de sua chefe, Sabine (Nathalie Richard), e observados de longe por Fred (Eric Caravaca), que um dia já foi o melhor amigo de Graham, embora este não se lembre disso e esqueça os abusos da chefe depois de alguns minutos.
Este estado de coisas dura até que Graham conhece sua nova colega Irène (Anna Mouglalis), por quem sente uma imediata atração. A atração é recíproca e os dois iniciam um estranho e intenso relacionamento, com Irène deslumbrada porque com Graham, cada vez é como a primeira vez. O espanhol, por seu lado, sente tanta necessidade de manter essa relação que começa a fazer força para reter Irène em sua memória por mais e mais tempo. A francesa, que contra a sua própria vontade começa a se apaixonar, se ressente de não poder ter com ele aqueles momentos compartilhados que no futuro formariam a memória afetiva do casal. Ela então começa a tentar descobrir mais sobre quem é aquele homem, e com ela o espectador.
Há algo em comum entre o filme de Jean-Pierre Limosin e o lindo filme de Michel Gondry, Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Naquele filme, Jim Carrey tomava a decisão consciente de esquecer sua amada Kate Winslet, enquanto seu subconsciente lutava para mantê-la bem viva na lembrança. Em Novo, Graham tenta conscientemente não esquecer a mulher por quem se apaixonou, usando alguns dos mesmos estratagemas de Guy Pearce em Amnésia, como escrever o nome da amada no próprio corpo.
A diferença entre Novo e Amnésia é que, enquanto o filme de Christopher Nolan se fixava no suspense, Novo é um filme romântico. Mas não romântico-meloso e sim um romântico extremamente sensual, que no fundo tenta responder àquela pergunta irrespondível: "O que é o amor?" A mesma pergunta feita pela menina Maria (Carolina de Oliveira) ao amigo interpretado por Gero Camilo na belíssima minissérie Hoje é dia de Maria, junto com outras perguntas cabeludas como "De onde viemos e para onde vamos?", e para as quais o amigo, em sua simplicidade, dá a única resposta possível: "Maria, essas perguntas são feitas só para serem perguntadas, nunca respondidas." Mas isso não impede que a gente continue tentando respondê-las, e no filme a tentativa de definir esse sentimento passa não só pelo amor romântico-sensual mas também pelo amor incondicional de um filho (Lény Bueno) por seu pai -- um pai que não lembra dele, mas nem por isso deixa de tratá-lo com um carinho talvez instintivo.
Novo é um filme esteticamente muito bonito. Não só todo o elenco, homens, mulheres e crianças, é lindo e fotogênico, também a trilha sonora é notável e as locações mostram uma Paris longe dos cartões postais -- não espere ver ali a Torre Eiffel ou qualquer outro símbolo da Cidade Luz que você esteja acostumado. E há cenas de intensa beleza em Novo. Gosto muito, por exemplo, da cena em que pai e filho se encontram na praia -- o pai literal e figurativamente despido para enfim se lembrar do garoto que é seu. E também adoro a cena na garagem de um shopping em que Graham, tentando sair do estacionamento mas sem achar seu ticket, simplesmente dá marcha-a-ré para tomar impulso e arrebenta a cancela com seu carro; e Irène, que o observava de longe em seu próprio carro com o ticket dela na mão, faz o mesmo. Pois talvez o amor passe por aí -- seguir o impulso do momento e deixar o resto pra lá.
Este é um filme que eu definitivamente vou querer ver de novo, antes que me esqueça dele.
Escrito por will robinson às 19h57
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So please be sweet, my chickadee And when I kiss ya, just say to me
"It's delightful, it's delicious, it's delectable, it's delirious, It's
dilemma, it's de limit, it's deluxe, it's de-lovely"
Logo no início de De-Lovely -- Vida e amores de Cole Porter, vemos um
envelhecido Cole Porter (Kevin Kline) sentado ao lado de um diretor
(Jonathan Pryce) num velho teatro, assistindo ao que parece ser o ensaio
de um musical sobre sua vida -- só que por algum motivo os atores no palco não
podem vê-lo nem ouvi-lo. De repente, o diretor grita para o elenco "Atenção!
Vamos ensaiar a cena de Paris." E de repente estamos em Paris, num grande
baile onde o jovem Cole conhecerá sua futura mulher, a milionária Linda Lee
(Ashley Judd). O elenco todo começa a cantar Well, did you evah! e
o espectador sente um arrepio de quem está vendo a magia do cinema acontecer na
sua frente.
O filme de Irwin Winkler tem vários momentos mágicos como esse, embora
não consiga manter a bola lá em cima o tempo todo. O roteiro é centrado na
relação heterodoxa entre Cole Porter e sua mulher: embora o compositor fosse
homossexual e promíscuo, e a relação de ambos nem sempre tenha sido um mar de
rosas, todos os biógrafos concordam que era uma relação de grande amor e
respeito mútuo. Mas como era uma relação destinada a nunca ser inteiramente
consumada -- muito embora o filme mostre que Linda teria chegado a ficar grávida
de Porter, tendo perdido o bebê em seguida -- De-Lovely adquire aos
poucos um ar de dramalhão melodramático, e a figura de Linda é um tanto
idealizada ao extremo como heroína romântica. O acidente sofrido pelo compositor
que o deixou com as duas pernas esmagadas e do qual nunca se recuperou também
colabora para que a segunda metade do filme se torne extremamente melancólica.
Mas De-Lovely nunca deixa de ser uma cinebiografia digna de um dos
maiores compositores de todos os tempos.
Birds do it,
bees do it
Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love
Agora algumas palavras sobre a parte musical do filme: talvez para
atrair a audiência jovem que nunca ouviu falar de Cole Porter, o diretor encheu
seu filme de pop stars interpretando clássicos do cantor. Esses números musicais
são sempre integrados à trama -- assim vemos Robbie Williams
interpretando a canção-título em meio ao casamento dos protagonistas, Alanis
Morissette interpretando Let's do it (let's fall in love) num musical
do compositor, Vivian Green cantando Love for sale muito
apropriadamente numa boate gay e assim por diante, com a exceção de Natalie
Cole, que aparece do nada para interpretar a linda Everytime we say
goodbye no momento mais triste do filme. Mas o momento musical mais
bem-resolvido não pertence a nenhum cantor popular, e sim ao ator especializado
em musicais John Barrowman, que interpreta um ator que encontra tanta
dificuldade para cantar Night and day que o próprio Cole Porter sobe ao
palco para ensiná-lo a se concentrar nas palavras, não na melodia, e começa a
cantar a linda canção junto com ele, até que a câmera dá um giro e de repente
estamos na estréia do espetáculo e o jovem cantor arrasa na interpretação. Outro
momento mágico com que o filme nos presenteia.
Night and day, you are the one Only you beneath the moon
or under the sun Whether near to me, or far It's no matter darling where
you are I think of you Day and night, night and day
No começo dos anos 90 houve um musical feito para a
televisão chamado Red Hot and Blue, em benefício de campanhas contra a
Aids, no qual vários artistas pop interpretavam canções de Cole Porter em seu
próprio estilo. O resultado era deslumbrante: Annie Lennox interpretava
Everytime we say goodbye com a alma, o mesmo se aplicando a k.d.
lang com So in love, U2 com Night and day e ainda
Sinéad O'Connor, Lisa Stansfield, Tom Waits, Neneh
Cherry e muitos outros. A diferença daquele projeto para este filme é que em
De-lovely os artistas convidados tiveram de criar interpretações que não
destoassem da época enfocada, e assim somos obrigados a escutar Alanis
Morissette, Sheryl Crow, Lara Fabian e Mick Hucknall,
entre outros, tentando dar uma de cantores da Broadway sem ter equipamento vocal
nem treinamento para isso. Nesse sentido, quem se sai melhor é o inglês
Robbie Williams, que consegue imprimir um pouco de sua própria
irreverência à sua interpretação de It's de-lovely sem nunca destoar do
resto do filme.
De qualquer forma, a não ser que você seja um purista, o resultado não chega
a ofender os ouvidos. De-Lovely é um filme que os amantes da boa música
bão querer ver e rever muitas vezes.
Everytime we say goodbye, I die a little,
Everytime we say goodbye, I wonder why a little,
Why the Gods above me, who must be in the know.
Think so little of me, they allow you to go.
When you're near, there's such an air of spring about it,
I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,
There's no love song finer, but how strange the change from major to
minor,
Everytime we say goodbye.
(Cole Porter - Everytime we say goodbye)
P.S.: Querem ler um texto lindo e comovente? Pois cliquem aqui e leiam o post de 12 de
janeiro, intitulado A perda da garrafa importada.
Escrito por will robinson às 21h12
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Passar as férias na cidade onde crescemos tem suas vantagens e desvantagens. Morei em Santos dos 16 aos 24 anos, ou seja, a passagem de adolescente a adulto. Embora nunca tenha me desligado da cidade, já que meus pais continuam morando aqui até hoje, há ocasiões em que me sinto um velho andando pelas ruas da cidade, pois cada esquina, cada canto, cada paisagem traz inúmeras lembranças de um tempo que não volta mais. Geralmente são lembranças boas, mas às vezes a nostalgia de uma época em que tudo era novidade e a vida inteira estava ainda no horizonte é quase insuportável.
Estava mergulhado nesse estado de espírito, outro dia, quando fui ao shopping com a intenção de assistir um filme. Planejava ver um outro filme, um filme mais adulto, mas de tão mergulhado nas lembranças da adolescência resolvi que a melhor opção no caso era ver Meu tio matou um cara, um filme que trata exatamente desse universo.
Para quem ainda não sabe do que se trata, apesar de toda a divulgação que o filme de Jorge Furtado vem tendo, eis a história: Duca (Darlan Cunha) é um adolescente de classe média numa grande cidade brasileira que não é identificada mas que toma emprestados os cenários de Porto Alegre. Seria um garoto igual a tantos outros se não fosse o único aluno negro na escola em que estuda, o que às vezes provoca um racismo às avessas, como quando os colegas evitam xingá-lo de idiota para não parecerem racistas. Duca é apaixonado pela sua amiga de infância Isa (Sophia Reis, filha do ex-Titã Nando Reis, cuja linda canção Por onde andei está na trilha), a qual por sua vez é gamada no colega bonitão Kid (Renan Gioelli), o qual se mostra bastante interessado nas curvas da personagem de Deborah Secco. Até que um dia o tio de Duca, Éder (Lázaro Ramos), um cara meio atrapalhado que nunca deu certo em nada, aparece na casa do irmão (Ailton Graça) e da cunhada (Dira Paes) dizendo que matou o ex-marido de sua namorada Soraya (Deborah Secco). Enquanto vê o tio ser preso, Duca, um viciado em video-games de mistério, resolve investigar o crime com seus amigos Isa e Kid, por acreditar que o tio estaria na verdade assumindo um crime cometido por sua namorada.
A trama policial nada mais é que um pretexto para o diretor explorar os conflitos amorosos próprios da adolescência e assim atingir o público jovem. Nenhum demérito nisso: trata-se de um filme muito bem-feito, com uma trilha sonora ótima, a qual inclui, só pra variar, alguns covers de Caetano Veloso (uma canção dos Talking Heads e outra do compositor gaúcho Nei Lisboa), mas cujo ponto alto é a ótima Soraia queimada, do baiano Zéu Britto (que esteve no elenco da série Sexo frágil). Também tem o mérito de encaixar aqui e ali alguns comentários sociais, sem nunca cair no tom discursivo ou panfletário. No entanto, em contrapartida Meu tio matou um cara acaba se tornando um típico filme de verão -- leve e gostoso como um sorvete, e rapidamente esquecido.
Escrito por will robinson às 17h55
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Música é meu ar, filmes meu alimento, arte minha vida. Esse é o título deste blog, que eu batizei em inglês não para parecer chique ou deslumbrado, mas simplesmente porque sendo professor de inglês e me expressando nessa língua grande parte do tempo, ela acaba vindo naturalmente em algumas ocasiões.
De qualquer forma, raramente um filme encarnou de forma tão profunda o título deste blog quanto o franco-chinês Balzac e a costureirinha chinesa, que assisti recentemente em Santos num cinema de arte.
A história é a seguinte: durante os anos 70, a Revolução Cultural de Mao Tse Tung (que, como já disse Barbra Streisand, não era nem uma revolução nem cultural) condenou a trabalhos forçados no interior milhares de pessoas acusadas do terrível crime de serem burguesas e/ou intelectuais, e portanto traidoras do comunismo. O filme, baseado num livro autobiográfico do próprio diretor Dai Sijie, mostra dois jovens – Ma (He Liu) e Luo (Kun Chen) – sentenciados à “reeducação” por serem filhos de profissionais liberais: um médico e um dentista. Isolados numa pequena comunidade encravada nas montanhas, os dois garotos se apaixonam pela filha do velho alfaiate da aldeia (Zhijun Cong), que é chamada por eles apenas de “costureinha” (Xun Zhou). Como a garota não sabe ler e se expressa de maneira simplória, os rapazes tomam a si a tarefa de educá-la (no sentido tradicional, não no comunista), e para isso usam os livros proibidos que encontram na bagagem de outro reeducando. Entre esses autores “burgueses” estão clássicos como Tolstoi, Flaubert, Stendhal, Dumas, Victor Hugo, mas é a literatura de Balzac que encanta e seduz a costureirinha, ao ponto de provocar uma transformação na vida dela.
Não é a primeira vez que o cinema mostra a literatura abrindo mentes e transformando vidas – Sociedade dos Poetas Mortos, meu filme preferido de todos os tempos, e O despertar de Rita são apenas dois exemplos que me vêm à cabeça agora. Mas a literatura não é a única arte homenageada neste filme. Há também a música: um dos garotos, Ma, toca violino e consegue salvar seu instrumento da fogueira ao tocar para aqueles simplórios camponeses uma melodia que ele identifica como “Mozart pensa no Camarada Mao”. Há o próprio cinema: os rapazes têm a tarefa de assistir filmes coreanos no cinema ao ar-livre de um vilarejo vizinho e depois contá-los aos camponeses. Há o teatro, pois as narrações de Luo não podem ser chamadas de outra forma, tornando-se mais interessantes que os próprios filmes que as originaram. E mesmo as roupas simples costuradas pelo velho alfaiate adquirem seu lado artístico quando ele se empolga com a leitura em voz alta que um dos garotos lhe faz de O conde de Monte-Cristo e passa a imprimir símbolos marinhos nas vestimentas de camponeses que nunca viram o mar.
Tudo isso e mais o belo visual do filme fazem de Balzac e a costureirinha chinesa uma festa para os olhos, a mente, a alma e o coração.
Filmes de cabeceira atualizado!
Escrito por will robinson às 17h58
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A galera do mal devia ser um filme obrigatório, a ser exibido em igrejas evangélicas.
Antes de prosseguir, deixa eu fazer uma ressalva para não cair no mesmo preconceito que eu quero condenar. Claro que nem todos os evangélicos são iguais: assim como nem todo muçulmano é terrorista como Osama Bin Laden, nem todo judeu é genocida como Ariel Sharon, nem todo católico é arqui-conservador como o Papa João Paulo II, nem todo evangélico é imbecil como o casal Garotinho, ridículo como a Bispa Sônia Hernandez ou perigoso como o presidente George W. Bush. Há evangélicos que vivem em paz com sua fé sem discriminar ou hostilizar aqueles que pensam diferente. Conheço alguns, inclusive em minha família.
Então, retificando: A galera do mal deveria ser um filme obrigatório a ser exibido para aqueles evangélicos intolerantes, aqueles que usam o nome de Deus para justificar toda sorte de arbitrariedade e preconceito contra aqueles que ousam cometer o pecado de ser humanos.
O maniqueísta nome brasileiro na verdade não traduz a ambiguidade do nome original, Saved! (salvo), que nada mais é que uma bem-feitinha comédia para adolescentes, mas com a originalidade de usar como cenário uma escola cristã para os chamados born again Christians, ou renascidos em Cristo. É nessa escola que estuda a garota Mary (Jena Malone), cristã desde os três anos de idade por escolha de sua mãe Lillian (Mary-Louise Parker). Mary nunca questionou sua fé, até que seu namorado Dean (Chad Faust) lhe confessa que tem dúvidas sobre sua sexualidade. Mary então entra em surto e tem uma visão de Jesus pedindo-lhe que "salve" o namorado. A garota decide cometer um pecado menor, ou seja, transar com Dean antes do casamento, a fim de evitar o pecado maior, que seria deixar o rapaz se tornar homossexual. Apesar do bravo "sacrifício" da garota, os pais do rapaz acabam por enviá-lo a uma espécie de reformatório para homossexuais, drogados e mães solteiras!
Para complicar as coisas, Mary engravida e decide esconder a gravidez da mãe, a qual tem um caso secreto com o pastor que dirige a escola (Martin Donovan), e das melhores amigas, com quem tem uma banda gospel, entre elas a insuportável Hilary Faye (a cantora Mandy Moore), uma provável candidata a futura Bispa Sônia. Seus aliados acabam sendo a ovelha-negra da escola, a judia Cassandra (Eva Amurri, filha de Susan Sarandon na vida real) e o deficiente Roland (o ex-menino-prodígio Macaulay Culkin), irmão de Hilary. Todas essas complicações fazem com que a garota entre no saudável processo de questionar aquilo em que foi levada a acreditar a vida toda.
A galera do mal não é um filme anti-religioso, não é nem mesmo ofensivo para aqueles que têm fé. É apenas um filme que prega a tolerância e o respeito às diferenças. Por isso, refazendo mais uma vez a frase inicial deste post, este filme deveria ser exibido, isso sim, em todas as escolas.
E para concluir, o melhor diálogo do filme:
A mãe: Quando Deus fecha uma porta, sempre abre uma janela.
A filha, rapidinho: É, pra gente pular dela.
Escrito por will robinson às 21h01
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Depois de tanto tempo sem escrever aqui, tenho vários assuntos acumulados para compartilhar. Mas vou começar pelo mais recente, afinal estamos na semana de Natal e falar de um filme natalino depois do Natal perde a graça.
Fui assistir O Expresso Polar para conferir as inovações técnicas tão comentadas. Trata-se de um estranho híbrido entre animação e filme com atores. O diretor Robert Zemeckis utilizou a técnica chamada de "motion capture", que consiste em capturar os movimentos de atores para utilizá-los na criação de personagens por computador, a mesma técnica usada para criar o personagem Gollum na trilogia O Senhor dos anéis. Mas Zemeckis capturou também as expressões faciais de seus atores, mudando assim o nome da técnica para "performance capture". É essa técnica que permite que Tom Hanks interprete nada menos do que seis personagens neste filme, incluindo o garoto protagonista.
No entanto, é preciso dizer que esse tour de force do oscarizado ator não trasnsmite necessariamente mais expressividade às figuras do desenho, que muitas vezes parecem tão inexpressivas quanto aqueles bonequinhos da antiga série Thunderbirds. Assim, o forte desse filme são as imagens deslumbrantes do trem em movimento, com movimentos de câmera de fazer cair o queixo e saltar os olhos.
A história: garoto que deixou de acreditar em Papai Noel é convidado a embarcar no Expresso Polar, trem que parte para o Pólo Norte a tempo de encontrar o bom velhinho antes que ele parta em seu trenó a distribuir presentes. A trama lembra um pouco o clássico A fantástica fábrica de chocolates, com sua mensagem moralista de premiar as crianças no final conforme seu desempenho durante a aventura.
Confesso que minha atitude diante de O Expresso Polar foi um tanto esquizofrênica. Explico: parte de mim se lembrou da criança que fui e que ainda se esconde em algum recanto oculto do meu ser. Essa criança adorava o Natal e se deliciava com as histórias em quadrinhos e os desenhos animados que se passavam nessa época, devido à Magia envolvida e àquele cenário de neve tão distante da nossa realidade, o que tornava tudo aquilo ainda mais encantador. Essa criança teria se deliciado com O Expresso Polar.
Já o meu Eu adulto, um homem cético e extremamente racional, se irritou um pouco com o proselitismo religioso embutido no filme. Sim, pois uma interpretação possível do filme é de que Papai Noel representa Deus, e a mensagem insistente durante todo o filme de que o garoto deve acreditar em Papai Noel sem questionar, nada mais é do que uma mensagem subliminar de conformismo e alienação.
Assim, se você, adulto, vai ou não se emocionar com este filme, depende do grau de comunicação que você mantém com sua criança interior. Descobri que a minha anda meio truncada.
E se depois de dizer tudo isso, os votos de um agnóstico que não acredita em Papai Noel significam algo para vocês, um Feliz Natal a todos!
Escrito por will robinson às 20h23
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Era um deficiente? Era um aleijado? Não! Era o VERDADEIRO super-homem!
Como mencionei no post em homenagem a Marlon Brando (08/07), quando assisti Superman - o filme, na ingenuidade da minha adolescência, não conseguia entender por que aqueles dois senhores, Marlon Brando e Gene Hackman, que interpretavam coadjuvantes, tinham seus nomes encabeçando o elenco antes do intérprete do herói, Christopher Reeve. Mas não importava: por mais talento que tivessem os dois monstros sagrados, quando Christopher entrava em cena eu não tinha olhos para mais ninguém. Fosse por trás dos óculos do tímido e apaixonado Clark Kent, fosse envergando seu patriótico uniforme azul-vermelho (já repararam como todos os super-heróis vestem as cores da bandeira americana?) e levando sua amada Lois Lane (Margot Kidder) para voar pelos céus de Manhattan (levante a mão quem nunca morreu de inveja da Lois naquela cena?!), Christopher Reeve era um delicioso colírio para os olhos.
Mas ele era mais, muito mais do que isso. Na mesma época em que fez os quatro filmes da série Superman, dos quais os dois últimos são descartáveis, mas os dois primeiros resistem ao tempo como exemplares da melhor safra de filmes sobre super-heróis, Christopher também participou do sucesso romântico Em algum lugar do passado, de dois filmes de época dirigidos por James Ivory -- Os Bostonians, onde disputava com a grande Vanessa Redgrave o amor de uma jovem (Madeleine Potter), e Vestígios do dia (este mais tarde), onde contracenava com Anthony Hopkins e Emma Thompson; e ainda do surpreendente thriller Armadilha mortal, onde interpretava o amante gay de Michael Caine, com quem trocava um beijo na boca! E este não foi o primeiro personagem gay de sua carreira, já que Reeve era ator de teatro antes de estourar no cinema, e numa de suas primeiras peças interpretou um veterano soldado do Vietnã que, apesar de suas medalhas, era discriminado por ser homossexual.
Aí aconteceu a tragédia que o deixou tetraplégico e Reeve mostrou um outro lado de sua personalidade - o de super-herói de verdade, um homem determinado a superar suas limitações e trabalhar por uma cura não só para si mesmo, mas para os milhões de deficientes que não têm a visibilidade que ele tinha. Com isso enfrentou até o presidente americano George W. Bush, ao defender publicamente o uso de células-tronco em pesquisas, contra a posição oficial do governo. O que mais me impressionou em sua história foi saber que, depois do acidente que quase o matou, Reeve considerou seriamente a eutanásia, mas foi dissuadido da idéia por sua mulher Dana, a qual lhe disse: "Qualquer que seja a sua decisão eu estarei ao seu lado, mas quero que você saiba que você ainda é você, e eu te amo." Daí o título de sua autobiografia ser Ainda sou eu.
Mesmo paralisado do pescoço para baixo, precisando de ajuda mecânica até para respirar, Christopher não abandonou sua carreira: trabalhou como ator em episódios das séries The Practice e Smallville, teve a ousadia de refilmar o clássico Janela Indiscreta no papel do protagonista e ainda dirigiu um belo filme chamado Armadilha selvagem (In the gloaming), com Glenn Close e Whoopi Goldberg no elenco, que conta a história de um jovem gay (Robert Sean Leonard) que está morrendo de Aids e tenta reatar seu relacionamento com a família.
Descanse em paz, meu querido super-homem, e aproveite para voar livre de todas as amarras.
Escrito por will robinson às 20h04
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Imagine ir ao cinema para assistir a um filme elogiado pela crítica, dirigido por um conceituado diretor e estrelado por alguém como Nicole Kidman, Julia Roberts ou Sharon Stone. Aí, passados vinte minutos de filme a heroína é violentamente assassinada e o resto do filme é levado pelo elenco coadjuvante. Estranho e surpreendente, chocante talvez? Pois foi isso mesmo que Alfred Hitchcock fez em Psicose, um filme que permanece como uma das maiores obras-primas da história do cinema, cuja estrela, Janet Leigh, faleceu essa semana.
Janet Leigh era uma estrela popular na época, casada com o igualmente popular Tony Curtis, com quem teve a filha Jamie Lee Curtis. Dizem que a cena do assassinato em Psicose foi um divisor de águas na história do cinema, não só pela ousadia do diretor em matar sua estrela logo no começo da história, mas também pela violência da cena em si, rodada em preto-e-branco para que o vermelho do sangue escorrendo pelo ralo da banheira não chocasse os espectadores mais sensíveis. Dizem, aliás, que o sangue cenográfico era chocolate...
Apesar dos mais de quarenta anos do filme, a cena do assassinato em Psicose permanece como uma referência na história do cinema. Janet viveu 77 anos, fez filmes importantes antes e depois de Psicose, inclusive A marca da maldade, de Orson Welles, e também escreveu livros, tanto autobiográficos quanto de ficção. Lembro-me de ter visto um romance dela, traduzido em português, sobre algo como a vida de uma estrela de Hollywood por trás da fama, mas não me pareceu interessante o suficiente para querer lê-lo. De qualquer forma, dificilmente estaria eu agora falando dela, ou teria a imprensa lhe dedicado tanto espaço, não fosse sua participação no genial filme de Hitchcock.
Uma questão interessante seria perguntar se qualquer outra atriz no mesmo papel teria tido o mesmo efeito. Certamente Hitchcock diria que sim, ele que acreditava mais no talento do diretor e do montador que na expressão do ator. Para dar um exemplo, o diretor inglês dizia que mesmo um grande ator como James Stewart dependia totalmente da montagem do filme: se ele aparecesse sorrindo e a cena seguinte fosse de uma criança brincando, o espectador acreditaria que James era um homem bom, que gostava de crianças. Porém, se depois do mesmo sorriso aparecesse uma mulher tomando banho, nua, a impressão do espectador em relação ao personagem seria totalmente diferente.
Seja como for, a "estrela" que Janet Leigh teria sido antes de Psicose há muito teria se apagado, se um Sol chamado Alfred Hitchcock não a tivesse iluminado para sempre. Janet Leigh, descanse em paz.
P.S.: Recadinho para quem se aventurar a ler os arquivos deste blog: por questão de limites de armazenamento de imagens, estou tendo de apagar imagens de posts mais antigos para que os novos possam continuar a aparecer devidamente ilustrados, e assim a história do Lost in the movies não se repita... Obrigado!
Escrito por will robinson às 18h12
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Fin (Peter Dinklage) é um homem extremamente solitário e introvertido, que detesta chamar a atenção, embora não consiga passar despercebido na multidão. Seu único amigo é Henry (Paul Benjamin), um aficcionado por trens que trabalha consertando trens de brinquedo, a quem Fin ajuda no trabalho e no hobby. Quando Henry vem a falecer repentinamente, deixa a Fin, de herança, uma velha estação de trem abandonada. Fin então se muda para lá, disposto a se isolar do mundo, mas as circunstâncias acabam levando-o a se envolver nas vidas de alguns de seus vizinhos, principalmente do falastrão dono de uma banquinha de cachorro-quente, Joe (Bobby Cannavale), e da deprimida e igualmente solitária Olivia (Patricia Clarkson). Ambos têm também seus problemas: Olivia perdeu um filho, Joe está vendo seu pai morrer aos poucos. Juntos, os três aprendem que nenhum homem é uma ilha.
Dito assim, pode parecer que O agente da estação é um filme melodramático e cheio de lições de moral. Nada mais longe da realidade: o diretor e roteirista Thomas McCarthy conduz seu relato de maneira tão contida e sutil que o espectador até se esquece que o protagonista é um anão (informação que omiti propositalmente do primeiro parágrafo deste post). Fin poderia ser qualquer um de nós, e pra falar a verdade minha identificação com ele foi total. Essa frase que usei aí em cima, "Nenhum homem é uma ilha", é algo que a gente aprende na escola e que pra maioria das pessoas é coisa tão óbvia que não merece nem discussão, mas para aqueles de nós que sofrem desse mal chamado introversão, aqueles de nós que têm extrema dificuldade em estabelecer contato com o outro, precisam praticar essa lição diariamente se não quiserem morrer de solidão. Nesse sentido, O agente da estação é uma ajuda e tanto.

Escrito por will robinson às 19h52
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Rei Arthur não é apenas mais uma refilmagem da manjada história já vista tantas vezes no cinema e na televisão. O filme dirigido pelo americano Antoine Fuqua tem vários méritos, sendo o mais evidente o de tentar mostrar uma versão mais histórica e menos lendária do mito. Aqui Arthur é na verdade Arturius (Clive Owen), um general romano responsável pela segurança na Bretanha dominada por Roma, que numa última missão antes de ser liberado do exército deve defender uma família protegida pelo Papa dos inimigos saxões. Para isso terá de juntar forças não só aos seus desmotivados cavaleiros da Távola Redonda, a essa altura resumidos a apenas seis, como também aos adversários Woads, rebeldes bretões liderados por Merlin (Stephen Dillane), aos quais pertence a brava guerreira Guinevere (Keira Knightley), cuja coragem e beleza vai mexer não só com Arthur mas também com seu mais fiel cavaleiro, Lancelot (Ioan Gruffudd).
Claro que no fundo tudo isso é apenas uma nova roupagem para contar uma mesma velha história. Um grande mérito do filme é não recorrer a astros manjados e sim a um elenco internacional e talentoso cujo único nome mais conhecido é o da inglesa Keira Knightley, famosa por seus papéis em Piratas do Caribe e Simplesmente amor, que no entanto aparenta ser frágil demais para uma mulher que guerreava em pé de igualdade com os brutamontes do filme.
Apesar dessa aposta no talento sobre a fama, o filme não foge de nenhum outro clichê de filmes do gênero: a música grandiloquente (capaz de fazer com que a trilha de Olga, por exemplo, pareça discreta e sutil por comparação), os diálogos previsíveis (coisas do tipo "Quero ver seu rosto bem de perto para poder matá-lo no campo de batalha!"), os velhos chavões que não convencem mais ninguém, como situar a ação naquele que seria o último dia de serviço dos cavaleiros, e um grande etc.
Nada disso atrapalha a diversão de assistir a mais um grande épico, que no entanto, com perdão do trocadilho, não vai fazer história.
Escrito por will robinson às 18h06
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Em O talentoso Ripley, o genial e pouco compreendido filme que Anthony Minghella adaptou do livro de Patricia Highsmith, Matt Damon interpreta o papel-título como um homem aficcionado por música clássica, mas que finge gostar de jazz a fim de conquistar sua presa, o boa-vida Dickie (Jude Law). O espectador entendia que Ripley, um homem mais afeito às regras da música clássica que às improvisações do jazz, tinha no entanto que aprender a improvisar se quisesse ser bem sucedido em seus intentos.
Em Colateral, Tom Cruise interpreta Vincent, um assassino profissional que, durante uma madrugada, "contrata" os serviços de um desavisado motorista de táxi, Max (Jamie Foxx), para levá-lo aos cinco endereços de Los Angeles onde deve realizar seus serviços. Max é fã de música clássica e Vincent gosta tanto de jazz que é capaz de recitar a biografia de Miles Davis enquanto realiza um de seus "serviços". É feita aqui a mesma relação entre a música e a personalidade que em O talentoso Ripley, com a diferença de que isso aqui é dito com todas as letras pelo personagem de Cruise: "Você tem que aprender a improvisar, Max". E Max aprende, lógico, se quiser salvar sua pele. É como se o roteirista Stuart Beattie não confiasse na inteligência do espectador e quisesse entregar tudo mastigadinho, como aliás é a tendência no filme hollywoodiano em geral. Engraçado é ver a mesma crítica que recebeu tão mal o ótimo filme de Minghella estar agora elogiando tanto o thriller de Michael Mann.
Não é que Colateral seja um mau filme. Tem a melhor atuação de Tom Cruise desde Jerry Maguire, o que não é pouca coisa, considerando que o superastro tem uma grande tendência ao chamado overacting, aquela mania de certos atores de representarem sempre um tom acima do necessário. Aqui, ao contrário, Cruise está discreto e convincente como um assassino profissional, frio e cínico como convém ao seu métier. Com exceção do final do filme, onde por força do roteiro ele acaba virando uma espécie de Exterminador do futuro -- um robô quase indestrutível.
Todo o elenco está muito bem. Eu nem mesmo cheguei a reconhecer Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo e Javier Bardem antes dos créditos finais: ponto para Michael Mann, que se revela um ótimo diretor de atores. O problema é que o filme tem uma certa pretensão a ser o Taxi driver dos anos 2000, sem ter estofo para isso. Recheado de diálogos pseudo-filosóficos entre os dois protagonistas, Colateral é um bom filme de ação, que prende a atenção até o final, embora não traga nenhuma surpresa para quem já viu algum filme de suspense na vida. Se você não esperar nada além disso, vai se divertir bastante.
Escrito por will robinson às 17h44
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Ao fim de Olga, tive a mesma sensação que tive ao assistir Diários de motocicleta, filme que não cheguei a comentar aqui. Há uma enorme distância estética entre os dois filmes: enquanto o filme de Walter Salles prima pela elegância e pela sutileza que caracteriza toda a obra do diretor, Jayme Monjardim escolheu fazer de sua adaptação do livro de Fernando Morais sobre a revolucionária Olga Benario Prestes um melodrama. Um melodrama sem nenhuma conotação pejorativa, no sentido estético mesmo. Daí os abundantes closes, a trilha sonora onipresente e redundante, as intermináveis cenas de neve ou chuva caindo na janela. Para se gostar de Olga, é preciso aceitar essa opção estética do diretor e apreciar as qualidades que o filme tem: a qualidade técnica é perfeita, nem dá pra acreditar que todas as cenas do filme, sejam em Moscou, em Berlim ou em campos de concentração em pleno inverno, foram gravadas no Rio. A atuação de todo o elenco é impecável, e o roteiro de Rita Buzzar é extremamente fiel ao livro, o qual por sua vez é fiel aos fatos históricos.
E a história de Olga se presta mesmo a um tratamento de melodrama, afinal quantas mulheres tiveram a trajetória dela, de adolescente judia burguesa a revolucionária comunista treinada em Moscou a guarda-costas de Luis Carlos Prestes (Caco Ciocler no filme) a mãe do filho dele a prisioneira de campo de concentração nazista? Monjardim fez um filme pra chorar, e seria preciso ter um coração de pedra para não se comover com a cena em que a filha de Olga (Camila Morgado), ainda bebê, é tirada dos braços da mãe desesperada. Mas eu, que terminei de ler o livro um dia antes de ir ver o filme, chorei também ao ler a carta de Olga Benario, escrita por ela ao saber que seria enviada à câmara de gás, que é reproduzida no livro e no filme.
Mas a sensação a que eu me referi lá no começo é o sentimento de que tanto Olga Benario quanto Che Guevara (representado por Gael Garcia Bernal no filme de Waltinho), que viveram em épocas diferentes, têm em comum o fato de terem um sonho e acreditarem nele a ponto de sacrificar suas vidas por ele. Ambos sonharam com um mundo melhor, um mundo sem desigualdades sociais. Não vem ao caso aqui discutir se escolheram ou não o melhor caminho para realizar esse sonho; o fato é que morreram acreditando que um mundo melhor era possível.
E hoje, que sonhos podemos ter? O último sonho que minha geração tinha, a de ver um partido formado por trabalhadores ocupando o poder, um operário sentado na cadeira de presidente da República, se realizou -- e daí? O que mudou de lá pra cá? Não, me perdoem mas não sonho mais.
O que resta então? Resta a dignidade, a dignidade tão bem representada pelo olhar límpido de Camila Morgado nas últimas cenas do filme, e que por si só valem a ida ao cinema: um olhar carregado de dor e sofrimento, mas também de esperança e, principalmente, dignidade. A dignidade de alguém que sabe que vai morrer, e mesmo assim tem consciência de que sua luta valeu a pena, pelo simples fato de ter lutado pelo que acreditava.

Escrito por will robinson às 22h50
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Meet me in Montauk, wherever that is and whoever you are
How happy is the blameless vestal's lot! The world forgetting, by
the world forgot. Eternal sunshine of the spotless mind! Each pray'r
accepted, and each wish resign'd . . .
(Alexander Pope, Eloisa to Abelard)

Finalmente ele arranjou algum tempo em sua apertada agenda para assistir
Brilho eterno de uma mente sem lembranças, filme a respeito do qual tinha
tido tão boas referências. Mas não estava preparado para o que encontrou.
Enquanto seu cérebro apreciava o filme pelo excelente roteiro, pela montagem,
pela direção, pela atuação, algo no filme o atingiu bem em cheio no coração. Sua
mente ficava fazendo anotações na memória sobre a engenhosa história do casal
que decide apagar um ao outro de suas lembranças, através de uma empresa
intitulada muito apropriadamente Lacuna. Seu intelecto observava o acerto do
roteiro em dar importância aos personagens do médico (Tom Wilkinson) e seus
assistentes (Mark Ruffalo, Kirsten Dunst e Elijah Wood), de maneira que eles
acabam sendo tão importantes na história quanto o casal de protagonistas, Joel
(Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Mesmo a personagem da mulher do médico
(Deirdre O'Connell), que não aparece mais do que alguns minutos em cena, tem uma
única fala importante, mas uma fala que vai mudar o destino de todos os
personagens.
Sim, sua mente observava tudo isso, se esforçava para acompanhar o ritmo da
história e conseguir distinguir o que era realidade e o que era alucinação na
mente de Joel. Sua mente captava as citações do roteiro, inclusive o poema de
Alexander Pope que dá título à história -- Eternal sunshine of the spotless
mind. Mas enquanto a mente trabalhava, o coração se enchia de uma certa
angústia que lhe provocava lágrimas compulsivas, lágrimas que não eram
provocadas por algum determinado momento da história, e sim pela sensação que
ele, também, deve algum dia ter passado por aquele processo de apagar alguém da
memória. Sim, pois de que outra maneira poderia explicar o enorme vazio que
sentia, o vazio que deveria ter sido ocupado por lembranças tão poderosas e tão
intensas que o levariam a querer se livrar delas?
"Meet me in Montauk", diz Clementine a Joel, não a Clementine real nem a
da memória, já que esse diálogo nunca aconteceu na vida real, mas sim uma
Clementine simbólica, metafórica, metafísica, que consegue se projetar na mente
de seu amado mesmo depois de tê-lo esquecido, ou ele é que consegue trazê-la
para a sua mente quando já está a ponto de esquecê-la. "Encontre-me em Montauk"
é a mensagem poderosa que significa no fundo "Não me esqueça, não me apague da
memória, pois o que houve de ruim não deve servir de motivo para apagar também o
que houve de bom."
E ele saiu do cinema decidido a ir também a Montauk, encontrar aquele ser que
tem que ter havido em seu passado para deixá-lo se sentindo tão vazio no
presente, sem direito a lembranças boas ou más. Sim, como Jim Carrey no filme
ele mataria o trabalho no dia seguinte, tomaria o trem e iria parar em alguma
romântica praia deserta e coberta de neve, onde encontraria as lembranças que
lhe foram tomadas.
Só havia um pequeno problema: ele não tem a menor idéia de onde diabos fica
Montauk.

Escrito por will robinson às 18h53
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