Lost in Space


Nasce uma deusa

"Eu não me afinava muito com Elis Regina. Apesar de admirá-la imensamente como cantora, e adorar sua voz, meu temperamento não coincidia muito com o dela. Mas quando ela morreu, fiquei muito preocupada com os filhos dela, principalmente a caçulinha, a Maria Rita, que era apenas um bebê... Ficava me perguntando o que teria acontecido àquela garotinha. E agora ela aparece linda, cantando lindamente, fazendo um show maravilhoso!"

Essa declaração é da minha colega Virgínia, mas ela ecoa um sentimento coletivo muito claro no interesse que se manifestou no surgimento da Maria Rita como cantora. Eu era um adolescente quando a Elis Regina morreu, já gostava dela através dos meus pais, que tinham em casa vários discos dela, e minha música favorita era O bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Claro, só com o tempo fui descobrindo por conta própria toda a importância que a Elis teve e tem no cenário da música popular brasileira, e hoje digo que na minha opinião ela foi a melhor cantora brasileira de todos os tempos.

Como ela morreu muito cedo, no auge da carreira, é claro que o sentimento de frustração e insatisfação de seus fãs diante de tudo o que ela ainda poderia ter feito é inesgotável. E talvez por isso esse sentimento tenha se transferido a seus filhos, no momento em que eles também ingressaram no mundo artístico.

Primeiro surgiu o João Marcello Bôscoli, que como músico e produtor lançou o ótimo álbum João Marcello Bôscoli & Cia., o qual trazia os então novatos Wilson Simoninha e Max de Castro, filhos de Wilson Simonal, e resgatava o então esquecido Claudio Zoli. Mas o maior mérito desse álbum foi ter lançado como cantor o irmão de João Marcello, Pedro Mariano, que logo na estréia arrebentava com uma interpretação arrebatadora de Como nossos pais, a música de Belchior que ficou tão marcada na voz de Elis. Assisti dois shows de Pedro Mariano, o primeiro deles com a participação de João Marcello na bateria, e admiro pra caramba a sua postura no palco, a sua voz afinada, embora confesse ter algumas reservas em relação a seu repertório. Mas seu álbum mais recente, Piano e voz, gravado apenas com o acompanhamento luxuoso de seu pai César Camargo Mariano, é uma pérola rara.

Ao contrário do irmão, que regravou várias das músicas da mãe famosa, Maria Rita optou por se distanciar ao máximo da imagem dela. Decisão sábia: se até hoje inúmeras pessoas com quem tenho conversado rejeitam Maria Rita pelo simples fato dela lembrar a mãe na aparência, na voz e nos gestos, imaginem o que não seria se ela tivesse logo de cara regravado alguma coisa de Elis... Revelando-se prudente e inteligente, Maria Rita foi se mostrando aos poucos, primeiro participando do lindíssimo disco Pietá de Milton Nascimento, depois do show e do álbum do violonista Chico Pinheiro, quando ainda assinava Maria Rita Mariano. A cantora então começou a mostrar seu próprio repertório em shows intimistas em pequenas casas de São Paulo, com ingressos disputados a tapa. É claro que por detrás disso está uma estratégia de marketing muito bem pensada, pois quando finalmente saiu o cd e o DVD de estréia, o público já não aguentava mais a curiosidade de conhecer a nova cantora que estava sendo tão elogiada pela crítica e pelos poucos privilegiados que a tinham visto no palco, e que por acaso era aquela mesma garotinha que tinha ficado órfã tão cedo e tão publicamente. Acontece que esse cuidado todo não teria adiantado nada se não houvesse um trabalho muito bom sustentando tudo isso. E seria preciso muita má vontade para não enxergar as virtudes de seu álbum de estréia, que é simplesmente maravilhoso.

Depois de muita espera, finalmente tive oportunidade de assistir o show de Maria Rita, no último domingo, dia 9, no Mendes Convention Center, em Santos. O local não era nem um pouco apropriado para shows: trata-se de um salão imenso, sem acústica apropriada, com muito eco reverberando nas paredes, e com o público acomodado em cadeiras sem grande conforto. Mas quando entrou a cantora, através de uma cortina vermelha, vestida com um camisão preto que deixava à mostra sua enorme barriga de grávida, e cantou Cupido de Claudio Lins (filho do compositor que marcou a carreira da mãe, Ivan Lins), ninguém teve olhos pra mais nada. Maria Rita cantou quase todo o repertório do primeiro disco, mais uma música inédita que segundo ela estará no segundo, e conversou bastante com a platéia. Explicou o motivo de ter escolhido algumas das canções: Cupido entrou por mostrar como se sente uma pessoa apaixonada, e aí ela apontou para a própria barriga e brincou: "Vocês podem ver que eu me identifiquei..."; Agora só falta você, de Rita Lee, por se identificar com a necessidade de mudança expressa na letra ("Um belo dia resolvi mudar/ e fazer tudo o que eu queria fazer..."), coisa que ela sentiu ao optar pela carreira de cantora, depois de muita hesitação. Maria Rita também tirou sarro da própria timidez, ao contar para a platéia como fica muda quando se encontra com alguém que admira, como Lenine, de quem gravou Lavadeira do rio, que ela definiu como "meu momento Daniela Mercury".

A cantora falou com muito carinho do pai músico ao contar que regravou Menininha do portão, do repertório de Wilson Simonal, porque o arranjo original era de César Camargo Mariano. Mas sobre a mãe nem uma palavra, pelo menos não de forma explícita. Como era dia das mães, e a própria Maria Rita está para se tornar uma, achei que ela cantaria Menina da lua, do mineiro Renato Motha, música que ela gravou, segundo conta no show exibido pela Globo e pelo Multishow no ano passado e lançado em DVD, para homenagear Elis Regina. Mas não cantou no domingo, talvez por medo de se emocionar, ela que estava tão emotiva que chorou ao agradecer a banda, formada por Marco da Costa na bateria, Tiago Costa no piano, Sylvio Mazzucca Jr. no baixo acústico e o fantástico Da Lua, cuja performance é um show à parte, na percussão. Justificando as lágrimas, Maria Rita disse que aquela era a última apresentação antes de dar uma parada para ter o filho, e que iria sentir falta da banda, que havia se tornado sua família.

Mas houve sim uma referência à mãe, para quem teve olhos para ver e ouvidos para escutar. Há um trecho de Pagu, música de Rita Lee e Zélia Duncan, em que a letra original diz "Minha mãe é Maria Ninguém", e é assim que Maria Rita a canta no disco. Mas no show ela diz "Minha mãe é Maria Alguém", e a cantora é banhada de luz no momento em que diz esse verso. Não era preciso mais nada: Menos é mais.

Profecia do dia: Anotem o que estou dizendo, um dia Maria Rita será tão importante para a música brasileira quanto o foi sua mãe...



Escrito por will robinson às 20h51
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Para ilustrar a resenha anterior, como costumo fazer, fiquei em dúvida sobre qual letra colocar aqui. Poderia ser Encontros e despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, minha favorita do disco. Ou Cara valente, de Marcelo Camelo, uma das mais aplaudidas no show, e que encerrou o bis da noite. Mas optei por outra música do vocalista do Los Hermanos, Santa Chuva, em homenagem à minha colega Virgínia (citada lá no começo), que me chamou a atenção para a performance de Maria Rita ao cantar essa música, interpretando-a em lugares diferentes do palco para deixar claro que a letra mostra um diálogo entre duas vozes.

SANTA CHUVA

( Marcelo Camelo)

(ele:)

Vai chover de novo
Deu na TV
Que o povo já se cansou
De tanto o céu desabar
E pede a um santo daqui
Que reza a ajuda de Deus
Mas nada pode fazer
Se a chuva quer é trazer você pra mim
Vem cá, que tá me dando uma vontade de chorar
Não faz assim
Não vá pra lá
Meu coração vai se entregar
À tempestade...

(ela:)

Quem é você pra me chamar aqui
Se nada aconteceu?
Me diz?
Foi só amor? Ou medo de ficar
Sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem...
A chuva já passou por aqui
Eu mesma que cuidei de secar
Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha TV
Que eu vou de vez
Não há porque chorar
Por um amor que já morreu
Deixa pra lá
Eu vou, adeus
Meu coração já se cansou de falsidade...



Escrito por will robinson às 20h49
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