Lost in Space


Tudo é jazz

C'mon babe
Why don't we paint the town?
And all that jazz ...

 

Em 1924, em Chicago, Illinois, uma mulher foi presa acusada de assassinar o amante. Na cadeia, conheceu uma outra assassina, uma cantora de cabaré que também matou o amante. O marido da primeira, um humilde mecânico, endividou-se para poder pagar um bom advogado que pudesse tirar sua mulher da cadeia. Seguindo a orientação do advogado, a assassina fingiu uma gravidez inexistente e fez-se de vítima a fim de comover os jurados. Absolvida, divorciou-se do marido no dia seguinte. A repórter Maurine Dallas Watkins cobriu a história para o jornal Chicago Tribune, e mais tarde transformou-a em peça teatral, mudando o nome das protagonistas para Roxie Hart e Velma Kelly, mas mantendo vários dos diálogos que testemunhou nas entrevistas e no julgamento em sua peça, que intitulou Chicago. A peça foi adaptada para o cinema mudo na mesma época, e em 1947 uma nova adaptação para o cinema foi feita, intitulada Roxie Hart e com Ginger Rogers no papel-título. Só que nessa versão a heroína era inocente e retratada como exemplar mãe de família.

You can like the life you're livin'
You can live the life you like
You can even marry Harry
But mess around with Ike

Somente depois da morte da autora, em 1969, o coreógrafo e diretor Bob Fosse conseguiu adquirir os direitos da peça para realizar um antigo sonho: transformar Chicago num musical ao estilo vaudeville, com canções da dupla Fred Ebb e John Kander, autores da trilha de Cabaret, entre outros sucessos. Chicago, o musical, estreou na Broadway em 1975, com a sexagenária Gwen Verdon no papel principal e Chita Rivera (que faz uma ponta no filme recente) como Velma. Mas o público não recebeu muito bem a ácida crítica de Bob Fosse a algumas das mais sagradas instituições americanas, como o sistema judiciário, a imprensa e o show-business, e embora Chicago tenha feito uma carreira respeitável na época, esteve longe do estrondoso sucesso do contemporâneo A chorus line.

Em 1996, o diretor Walter Bobbie decidiu remontar a peça de Fosse, convencido de que após o caso O.J. Simpson, o público americano não mais encararia o texto como uma crítica ácida, e sim como um documentário fiel da realidade. O diretor trouxe para sua empreitada a atriz, bailarina e coreógrafa Ann Reinking, ex-mulher de Bob Fosse e atriz da produção original de Chicago, a fim de "recriar" o estilo de Fosse na coreografia. O resultado foi um estrondoso sucesso, continua em cartaz até hoje na Broadway, em Londres e em diversas outras partes do mundo, e agora chega a São Paulo.

And that's good, isn't it grand?
isn't it great, isn't it swell?
isn't it fun, isn't it?
But nothing stays
In fifty years or so
It's gonna change, you know
But, oh, it's heaven
Nowadays

Agora um parênteses: em 1998 passei um mês em Londres, e aproveitei para ver alguns dos musicais que mais tinha vontade de conhecer, como Cats, Phantom of the opera e Jesus Christ Superstar. Na minha última semana na cidade, minha roommate, a colombiana Consuelo, decidiu ir assistir a recém-estreada produção londrina de Chicago, que tinha no elenco a cantora alemã Ute Lemper, por quem Consuelo tinha adoração, como Velma Kelly. Muito depois eu vim a conhecer a música de Ute Lemper e também virei seu fã, mas na época não tinha a menor idéia de quem fosse essa senhora, e também não conhecia nada do musical Chicago. Por isso resolvi gastar meus últimos pounds assistindo outro musical de sir Andrew Lloyd Webber, Starlight express, atraído pela idéia de ver atores representando trens. O resultado é que Starlight express revelou-se uma bela bomba e minha colega Consuelo ficou encantadíssima com Chicago, deixando em mim uma frustração que só terminou, em parte, ao assistir a produção brasileira de Chicago, há duas semanas.

Claro, a essa altura eu já tinha visto a adaptação cinematográfica de Rob Marshall para o musical, estrelada por Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones e Richard Gere e ganhadora de seis Oscars, inclusive melhor filme. Tanto gostei do filme que comprei o DVD, mas na época fiquei revoltado com o prêmio de melhor filme, embevecido que estava com as qualidades dos concorrentes As horas e O pianista. Somente agora, revendo o filme em DVD e comparando-o com a peça, é que pude reconhecer as qualidades do filme de Rob Marshall, a atenção que ele deu a detalhes como os lenços vermelhos representando o sangue na cena do Tango no presídio e vários outros detalhes que me passaram batidos na época .

Já o musical em cartaz no Teatro Abril, o antigo Teatro Paramount, foi montado exatamente como a produção em cartaz na Broadway, com direito a diretor e coreógrafo americanos, respectivamente Scott Faris e Gary Chryst. A peça é bem diferente do filme no sentido de não ser nem um pouco realista em sua concepção visual. Não há cenários, há apenas uma orquestra no centro do palco, algumas cadeiras e uma escada. Não há trocas de roupa, o elenco veste o mesmo figurino o tempo todo. Tudo para reforçar a idéia de que "Tudo é mágica", ou "Razzle Dazzle" no original, como canta o personagem do advogado. Isto é, é tudo um grande espetáculo, seja a prisão, o julgamento, a cobertura da imprensa, a procura da fama a todo custo: tudo extremamente atual, como sabe qualquer leitor da Caras e qualquer espectador do Big Brother. E estamos falando de uma história que aconteceu em 1924!

Quando comento que assisti Chicago, o musical, todos vêm me perguntar sobre a atuação da estrela global Danielle Winits como Velma Kelly. O consenso geral é que a moça é melhor dançarina que cantora, embora seja meio injusto comparar sua limitada extensão vocal com gente como Selma Reis, que com seu vozeirão interpreta a carcereira Mama Morton. Danielle dá conta de sua personagem, mas na minha opinião não é a melhor artista em cena. Adriana Garambone como Roxie Hart e Daniel Boaventura como o advogado Billy Flynn arrasam em seus desempenhos, tanto vocais quanto dramáticos. Também merecem destaque Jonathas Joba, que é muito aplaudido como o apático Amos Hart, e A. Bittencourt como a deslumbrada repórter Mary Sunshine, num desempenho que reserva uma grande surpresa para quem só conhecia a história pelo filme.

Tudo no espetáculo é impecável. Mesmo a tradução das músicas, assinada pelo ótimo Cláudio Botelho, é tão boa que mesmo quem conhece as canções originais, como eu, às vezes até esquece que as está ouvindo em outra língua. Com sua crítica que permanece mais atual do que nunca, Chicago é muito mais do que apenas mais um musical para entreter a família. É Teatro com T maiúsculo.

 Start the car
I know a whoopee spot
Where the gin is cold
But the piano's hot

It's just a noisy hall
Where there's a nightly brawl
And all that jazz!

(Fred Ebb/ John Kander)

P.S.: Não deixem de acessar o Achômetro (ver link aí do lado) para ler minha resenha inédita do filme Alguém tem que ceder.



Escrito por will robinson às 19h11
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