Lost in Space


A tristeza é uma forma de egoísmo

O único motivo de ter criado este espaço é a necessidade que sinto de compartilhar minhas impressões sobre experiências estéticas, tais como filmes, livros, shows ou peças, que de alguma forma me afetam ou me tocam. No entanto, a constante falta de tempo me leva a deixar de comentar obras que muito me comoveram, caso do filme Benjamim, adaptação da diretora Monique Gardenberg para o livro de Chico Buarque. O fato de estar lendo agora uma biografia de Chico Buarque escrita pela jornalista Regina Zappa para a série Perfis do Rio, e principalmente o fato de ter escutado esta manhã a trilha sonora do filme, um belíssimo trabalho que reúne desde canções originais de Arnaldo Antunes a clássicos de Jacques Brel e Astor Piazzolla, passando por The Platters e Chet Baker, me levou a de novo mergulhar na atmosfera do filme. Me aproveito, então, do pretexto de que Benjamim ainda está em cartaz aqui em São Paulo (numa única sala, numa única sessão, mas enfim...) para finalmente escrever sobre o filme

.

Benjamim Zambraia (Paulo José na maturidade, Danton Mello quando jovem) é um modelo publicitário que leva uma vida de absoluta solidão, por motivos que só serão esclarecidos no final do filme. Um fortuito encontro com a corretora de imóveis Ariela Masé (Cleo Pires) o leva a lembrar uma intensa paixão do passado devido à incrível semelhança da moça com Castana Beatriz (também interpretada por Cleo Pires), uma modelo filha de pai rico e reacionário (Mauro Mendonça) que acaba por se engajar na luta contra a ditadura. Dilacerado pela lembrança, Benjamim desenvolve uma obsessão por Ariela... e mais não se deve contar, pois um dos grandes charmes da história é ir se revelando aos poucos.

Com todo o respeito e devoção que tenho pelo grande Chico Buarque, já devidamente homenageado e celebrado no post anterior, devo dizer que Benjamim, na minha opinião, é um dos raros casos de filmes que resultam melhores do que o livro em que se basearam. Benjamim, o livro, é cheio de boas idéias não muito bem aproveitadas, tais como a mania do protagonista de se imaginar dentro de um filme, que é citada nas primeiras páginas do romance e depois esquecida. O romance também é repleto de personagens secundários, tais como o político interpretado no filme por Chico Diaz, cuja única função parece ser antes a de comprovar alguma tese do autor (há a sugestão de uma relação entre a descrença nos políticos e o longo período de ditadura) do que a de servir à história. A adaptação de Monique Gardenberg preserva os personagens coadjuvantes, é verdade, mas no filme há uma maior unidade entre eles e os protagonistas. Além disso os personagens em geral ganham maior consistência no filme, talvez pela concisão ou pela necessária linearidade da história. Mesmo as constantes idas e vindas no tempo em nenhum momento atrapalham a fluidez do relato, graças aos diferentes tratamentos de luz, fotografia, trilha sonora e mesmo postura dos atores nas cenas de flashback. Há momentos nessas cenas em que os atores ficam a princípio estáticos para em seguida começarem a se mexer, como uma fotografia que ganhasse vida. É quase como se fosse outro filme dentro do filme.

Se Benjamim, o filme, não tivesse outras qualidades, ainda valeria a pena ser visto apenas pelo extraordinário trabalho de Paulo José, um ator no auge do talento, a quem nem mesmo a doença (o ator sofre do Mal de Parkinson) interfere em nenhum momento em sua caracterização. Paulo é um daqueles raros atores que conseguem nos comover até as lágrimas com apenas um gesto ou um olhar. Quanto à iniciante Cleo Pires, a linda herdeira dos traços de seus pais Glória Pires e Fábio Júnior, a quem couberam não apenas um mas dois personagens fundamentais na história, a garota se sai surpreendentemente bem para quem nunca tinha feito nenhum trabalho de atriz. Diga-se que ela se sai melhor no papel contemporâneo que no do passado. A trajetória da modelo rica que vira guerrilheira talvez precisasse de uma atriz de mais experiência ou mais recursos, mas como ela só aparece nas lembranças do protagonista, isso não importa tanto. Já seu desempenho como a corretora Ariela Masé, uma jovem que esconde por trás da gargalhada contagiante uma alma atormentada de uma mulher que não sabe direito quem é, de onde veio ou para onde vai, é impecável.

No fundo, Benjamim é uma tentativa de encontro impossível. Impossível não pela diferença de idade ou de estado civil entre os protagonistas, mas sim por ser um encontro entre duas almas tão isoladas em sua solidão que não mais conseguem se comunicar. Como na música de Arnaldo Antunes, "a tristeza é uma forma de egoísmo". Mas às vezes é também um vício do qual não mais conseguimos nos livrar.

 

Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar eu vou te dar eu vou te dar

(Arnaldo Antunes, Alegria)



Escrito por will robinson às 22h32
[ ] [ envie esta mensagem ]

 
Histórico
20/03/2005 a 26/03/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
23/01/2005 a 29/01/2005
16/01/2005 a 22/01/2005
09/01/2005 a 15/01/2005
02/01/2005 a 08/01/2005
19/12/2004 a 25/12/2004
10/10/2004 a 16/10/2004
03/10/2004 a 09/10/2004
19/09/2004 a 25/09/2004
12/09/2004 a 18/09/2004
29/08/2004 a 04/09/2004
22/08/2004 a 28/08/2004
15/08/2004 a 21/08/2004
08/08/2004 a 14/08/2004
01/08/2004 a 07/08/2004
18/07/2004 a 24/07/2004
04/07/2004 a 10/07/2004
27/06/2004 a 03/07/2004
13/06/2004 a 19/06/2004
06/06/2004 a 12/06/2004
23/05/2004 a 29/05/2004
09/05/2004 a 15/05/2004




Outros sites
 Achômetro
 Bolsa Nova
 Café na Paulista
 Cinema e etc...
 Cine Majestic
 Coisas da gaveta
 Eldorado FM
 Eu e a arte
 Filmes de cabeceira
 Filmes GLS ou quase
 Hay dias
 lost in the movies
 O monoglota
 Patricia-
 Pensamentos imperfeitos
 Pentimento
 Sapos e halls amarela
 the.way.things.are
 Toda sexta-feira
 UOL
 Vozes do Brasil