Lost in Space


O tempo é mágico

O tempo é mágico no teatro. Quantas vezes já não ouvimos isso na boca de artistas? Mas mesmo sendo um clichê, nada mais verdadeiro. Tive a prova recentemente ao assistir a duas peças bem cotadas pela crítica. 3 versões da vida, com apenas 80 minutos de duração, parece se arrastar por umas três horas. Já Os sete afluentes do rio Ota tem cinco horas que passam rapidinho e ainda deixam vontade de ver mais.

Fui ver 3 versões da vida atraído pelo nome de Denise Fraga, uma grande atriz que ainda não tinha tido oportunidade de ver no teatro. A idéia é engenhosa: Denise Fraga e Marco Ricca interpretam um casal estressado por problemas nos respectivos trabalhos -- ele, um físico que espera ansiosamente uma publicação de um trabalho que pode fazer a diferença entre uma promoção que ele espera há anos ou o esquecimento no competitivo mundo acadêmico; ela, uma advogada que precisa estudar um processo complicado para a firma em que trabalha. Às voltas com o choro insistente do filho pequeno (fora de cena) que não consegue dormir, eles recebem a visita inesperada de um casal de amigos que eles só esperavam para jantar na noite seguinte. O marido (Mario Schoemberger) é um arrogante que pode conseguir a promoção que seu colega tanto deseja e pretende se aproveitar disso em interesse próprio, enquanto a mulher (Ilana Kaplan) não passa de uma perua sem muito conteúdo cultural.

A conversa entre esses quatro personagens é contada de três maneiras diferentes, daí o título da peça, mas ninguém muda de personalidade: são apenas diferentes nuances de uma mesma situação, onde ora predomina a ironia, ora a agressividade. Fica óbvio que a intenção da autora, a francesa Yasmina Reza, é explorar as contradições do comportamento humano, onde a mesma coisa dita de maneiras diferentes pode ter consequências distintas. O problema é que essas quatro pessoas em cena são todas tão egoístas e mesquinhas em seus pequenos interesses que o espectador não se envolve e não se identifica com nenhum deles, passando a acompanhar toda a ação com indiferença e tédio. Nos intervalos entre as diferentes cenas, eram audíveis os comentários da platéia: «Ai, vai começar tudo de novo?!» A peça acaba valendo pelo excelente elenco, especialmente pelo trabalho de Marco Ricca numa difícil composição de um personagem depressivo em meio ao que não deixa de ser uma comédia. E Ilana Kaplan, que eu já conhecia por seu trabalho de comediante num espetáculo solo, é quem arranca as maiores gargalhadas.

Agora, Os sete afluentes do rio Ota é uma outra história. Trata-se de um trabalho desenvolvido pelo canadense Robert Lepage e pelo grupo Ex-Machina, adaptado para o Brasil pela corajosa Monique Gardenberg, a mesma que dirigiu o filme Benjamim e que por esses dois trabalhos acaba de ganhar minha admiração incondicional.

Difícil falar em poucas palavras de um trabalho tão complexo, mas vou tentar. O título se refere ao rio que corta a cidade de Hiroshima, no Japão, onde se passam o primeiro e o último dos sete atos da peça. O primeiro se passa em 1945 e narra o envolvimento de um jovem soldado americano, Luke O'Connor (Caco Ciocler) e a japonesa Nozomi (Beth Goulart), desfigurada pela bomba atômica e cujo rosto nunca é visto pelo público. No ato seguinte, na efervescente Nova Iorque dos anos 60, assistimos ao encontro entre os dois filhos do soldado do primeiro ato, ambos chamados Jeffrey, embora um seja um americano (de novo Caco Ciocler) que busca nas drogas e no sexo uma válvula de escape para sua angústia existencial, e o outro um aspirante a músico japonês (Jiddu Pinheiro) em busca de suas raízes ocidentais. Em seguida acompanhamos o destino destes personagens e de outros ligados a eles, além de seus descendentes, num painel que passa por várias épocas e países, até terminar na virada do milênio na mesma Hiroshima onde tudo começou. Mas a personagem que liga os vários atos é a japonesa Hanako (Maria Luisa Mendonça), que ainda menina fica cega pela explosão da bomba e mais tarde se casa com um dos Jeffreys. É ela quem começa e quem termina a peça, tornando-se uma espécie de símbolo do que o espetáculo propõe: que acima das guerras, do sofrimento, da intolerância, o que pode nos salvar e nos redimir é o amor -- por um amigo, por um filho, por um companheiro, mas que seja um sentimento que nos eleve além do egoísmo da nossa própria existência.

Cada um dos sete atos é narrado de uma maneira diferente, seja usando técnicas de drama, de comédia, de farsa, de butô, e muito audiovisual também. Há alguns que não funcionam muito bem, como o terceiro, que se passa em Osaka mas é totalmente falado em francês, ora com legendas ora com tradução simultânea, usando a própria tradução como recurso cômico. Em compensação o quinto ato, intitulado O espelho e que narra as lembranças da judia Jana Capek (Helena Ignez) quando era uma menina presa num campo de concentração (a menina é interpretada por Maria Luisa Mendonça), é uma verdadeira aula de delicadeza e sutileza, além de se utilizar de recursos cênicos que provocam um efeito de beleza e poesia inigualável. O final da peça, então, com a japonesa Hanako se despedindo das últimas amarras que a prendiam ao passado, ao som da música de Moby ao fundo, é de uma beleza tão grande que dá vontade de assistir toda a peça de novo só para se rever essa cena. Coisa que farei, certamente, já que a peça acaba de ganhar uma sobrevida em cartaz, aqui em São Paulo, graças a um patrocínio oficial que estava ameaçado de não sair. O que me leva a concluir que as dificuldades econômicas do mundo globalizado que enfrentamos hoje são a verdadeira bomba atômica do mundo atual, uma arma capaz de destruir sonhos e matar a beleza.



Escrito por will robinson às 20h38
[ ] [ envie esta mensagem ]

 
Histórico
20/03/2005 a 26/03/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
23/01/2005 a 29/01/2005
16/01/2005 a 22/01/2005
09/01/2005 a 15/01/2005
02/01/2005 a 08/01/2005
19/12/2004 a 25/12/2004
10/10/2004 a 16/10/2004
03/10/2004 a 09/10/2004
19/09/2004 a 25/09/2004
12/09/2004 a 18/09/2004
29/08/2004 a 04/09/2004
22/08/2004 a 28/08/2004
15/08/2004 a 21/08/2004
08/08/2004 a 14/08/2004
01/08/2004 a 07/08/2004
18/07/2004 a 24/07/2004
04/07/2004 a 10/07/2004
27/06/2004 a 03/07/2004
13/06/2004 a 19/06/2004
06/06/2004 a 12/06/2004
23/05/2004 a 29/05/2004
09/05/2004 a 15/05/2004




Outros sites
 Achômetro
 Bolsa Nova
 Café na Paulista
 Cinema e etc...
 Cine Majestic
 Coisas da gaveta
 Eldorado FM
 Eu e a arte
 Filmes de cabeceira
 Filmes GLS ou quase
 Hay dias
 lost in the movies
 O monoglota
 Patricia-
 Pensamentos imperfeitos
 Pentimento
 Sapos e halls amarela
 the.way.things.are
 Toda sexta-feira
 UOL
 Vozes do Brasil