Lost in Space


"A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos." Essa frase famosa de John Lennon bem poderia ser a epígrafe de Igual a tudo na vida, o novo filme de Woody Allen, que assisti numa pré-estréia gratuita para professores, sábado passado. Nesse filme o diretor-símbolo de Nova Iorque volta à sua melhor forma, fazendo rir ao mesmo tempo que faz pensar. Garanto que muita gente vai se deixar enganar pela embalagem de comédia romântica em que o filme vem embrulhado, mas quem cair nessa armadilha vai perder as muitas sutilezas embutidas nessa obra instigante.

Logo no começo do filme, o jovem escritor Jerry Falk (Jason Biggs, mostrando que seu talento vai além de comédias alopradas como a série American Pie) conta a seu amigo e mentor David Dobel (Woody Allen) que faz análise porque não consegue dormir sozinho, e embora seu analista (William Hill) seja um daqueles freudianos típicos que mais escutam do que falam, o rapaz diz que chegou a abrir mão de um emprego em Hollywood para não interromper as sessões de terapia. Compreende-se logo que o personagem se cerca de pessoas carentes apenas porque não consegue ficar sozinho. Ele está perdidamente apaixonado pela aspirante a atriz Amanda (a sempre impecável Christina Ricci), sem ligar para o fato de que a garota não consegue mais dormir com ele, embora não tenha o mesmo problema com outros homens, e até traz a mãe, a cantora frustrada Paula (Stockard Channing) para morar com eles. Jerry também não consegue reunir coragem para despedir seu incompetente agente Harvey (Danny DeVito). Enquanto Jerry tenta escrever um livro sobre a falta de sentido da vida e a inexorabilidade da morte, ele não percebe que está deixando de viver.

O lado mais interessante do filme é o relacionamento entre o escritor iniciante e o veterano. Nunca Woody Allen interpretou um personagem tão diferente de si mesmo, ou pelo menos da persona que ele costuma interpretar em seus filmes e que nos acostumamos a enxergar como seu alter-ego. David Dobel é um comediante frustrado, que não acredita em psicoanálise, que dá aulas para sobreviver embora pareça não nutrir nenhum idealismo em relação à educação, e que desenvolveu uma paranóia obsessiva que o leva a manter armas carregadas em casa e que ocasionalmente pode resultar em violência. Ao mesmo tempo ele parece perceber que a imaturidade emocional de seu jovem amigo pode levá-lo a enveredar pelo mesmo caminho, daí sua insistência em fazê-lo romper com todos os seus laços e recomeçar a vida em outro lugar, um lugar onde talvez ele não fique tão obcecado em encontrar um sentido para a vida e passe a, finalmente, viver.

Como sempre Allen capricha na trilha sonora, que inclui várias interpretações de Billie Holiday e uma participação luxuosa de Diana Krall. Igual a tudo na vida é um filme inteligente, cheio de subtextos mas extremamente leve e gostoso de se ver. Uma obra de um artista em plena maturidade.



Escrito por will robinson às 21h36
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