Lost in Space


Eis o malandro na praça outra vez

"Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni

Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um, maldita Geni!"

Eu era criança quando essa música começou a tocar no rádio (bons tempos em que o rádio tocava boa MPB...), na voz de seu autor, Chico Buarque, e imediatamente fiquei fascinado por ser a primeira vez que eu ouvia um palavrão numa música! Claro que na época eu não entendia a história narrada na canção, acho que ainda nem sabia o que queria dizer "ela dá pra qualquer um", e só muito depois fui descobrir que não só Geni e o zepelim mas também várias outras canções que meus pais costumavam ouvir em casa, como Folhetim na voz de Gal Costa, Teresinha com Maria Bethania, Pedaço de mim interpretada por Simone, e O meu amor num dueto de Bethania e Alcione, faziam parte de uma peça de Chico Buarque chamada Ópera do malandro. Quando descobri, não só adquiri o LP duplo com as músicas da peça como também o livro com o texto, a fim de entender o contexto em que aquelas canções eram interpretadas.

"Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama e me chama de mulher"

Depois veio o filme dirigido por Ruy Guerra e estrelado por Édson Celulari, Claudia Ohana, Elba Ramalho e Ney Latorraca. Embora o roteiro tenha sido assinado pelo próprio Chico Buarque em co-autoria com o diretor, a história foi bastante modificada em relação ao original, e o que mais chamava a atenção nessa produção eram as novas canções, algumas delas clássicos instantâneos como Palavra de mulher, Sentimental, As muchachas de Copacabana e A volta do malandro. Revendo o filme em vídeo recentemente, fiquei pasmo com as falhas de roteiro. Imaginem que Claudia Ohana e Elba Ramalho interpretam o dueto O meu amor num momento do filme em que a personagem de Claudia ainda não havia sequer trocado um beijo com o protagonista. Como ela então poderia cantar "E que me deixa louca quando me beija a boca, a minha pele toda fica arrepiada, e me beija com calma e fundo até minh'alma se sentir beijada"??? Mas o pior nem era isso, o pior era que quase todos os personagens eram interpretados como estereótipos de tipos sem alma -- o malandro sedutor, o xerife corrupto, a mocinha falsamente ingênua e dissimulada, o nazista autoritário (Fábio Sabag), fazendo com que a Lucia de Elba Ramalho (que no filme era uma prostituta, ao contrário da peça) fosse a única personagem realmente apaixonada na história.

"Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim

Por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim"

Agora, eis que a formidável dupla de diretores Charles Möeller e Claudio Botelho toma a si a tarefa de ressuscitar a obra de Chico da maneira como ela foi concebida, apenas eliminando alguns excessos do texto original que ficaram datados e acrescentando algumas das melhores canções do filme. Os diretores recriaram a Lapa num cenário belíssimo e reuniram um elenco de jovens desconhecidos mas extremamente talentosos, mais os veteranos Mauro Mendonça e Lucinha Lins (minha "ídola" desde criança) arrasando como o casal de contraventores Duran e Vitória. O resultado não poderia ser outro que não o retumbante sucesso que a peça teve no Rio e vem repetindo em São Paulo, apesar da curtíssima temporada e do desconforto de estar sendo levada numa casa de shows (o Tom Brasil - Nações Unidas), com seu esquema de mesas abarrotadas e apertadas e garçons circulando pra lá e pra cá.

 "Pra se viver do amor, há que esquecer do amor (...)

O amor jamais foi um sonho

O amor, eu bem sei, já provei

E é um veneno medonho"

Embora as metáforas sociais e políticas estejam todas lá, na história do malandro Max Overseas (o excelente Alexandre Schumacher) que se casa com a burguesa Teresinha Duran (Soraya Ravenle), a qual se revela uma exímia e impiedosa executiva, simbolizando o poder do dinheiro que em breve acabaria com qualquer resquício de romantismo que ainda existisse no conceito de malandragem, o que mais salta aos olhos nessa montagem e que faltou no filme é que os personagens são acima de tudo pessoas de carne e osso, pulsando de desejo e sofrendo por amor com a intensidade necessária para que as palavras afiadas das belíssimas e conhecidíssimas canções de Chico saiam de suas bocas como se estivessem sendo ditas pela primeira vez. E o fato dos diretores e do elenco terem conseguido esse feito notável já coloca esta montagem da Ópera do Malandro como um espetáculo imperdível e pra se lembrar sempre.

"Eis o malandro na praça outra vez, caminhando na ponta dos pés

Como quem pisa nos corações que rolaram dos cabarés"

(Chico Buarque)

 

E por favor prestigiem meu blog alternativo, Filmes de cabeceira, o qual criei a princípio para salvar alguns textos do meu antigo blog mas agora está com resenha inédita!



Escrito por will robinson às 18h43
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