Lost in Space


Rei Arthur não é apenas mais uma refilmagem da manjada história já vista tantas vezes no cinema e na televisão. O filme dirigido pelo americano Antoine Fuqua tem vários méritos, sendo o mais evidente o de tentar mostrar uma versão mais histórica e menos lendária do mito. Aqui Arthur é na verdade Arturius (Clive Owen), um general romano responsável pela segurança na Bretanha dominada por Roma, que numa última missão antes de ser liberado do exército deve defender uma família protegida pelo Papa dos inimigos saxões. Para isso terá de juntar forças não só aos seus desmotivados cavaleiros da Távola Redonda, a essa altura resumidos a apenas seis, como também aos adversários Woads, rebeldes bretões liderados por Merlin (Stephen Dillane), aos quais pertence a brava guerreira Guinevere (Keira Knightley), cuja coragem e beleza vai mexer não só com Arthur mas também com seu mais fiel cavaleiro, Lancelot (Ioan Gruffudd).

Claro que no fundo tudo isso é apenas uma nova roupagem para contar uma mesma velha história. Um grande mérito do filme é não recorrer a astros manjados e sim a um elenco internacional e talentoso cujo único nome mais conhecido é o da inglesa Keira Knightley, famosa por seus papéis em Piratas do Caribe e Simplesmente amor, que no entanto aparenta ser frágil demais para uma mulher que guerreava em pé de igualdade com os brutamontes do filme.

Apesar dessa aposta no talento sobre a fama, o filme não foge de nenhum outro clichê de filmes do gênero: a música grandiloquente (capaz de fazer com que a trilha de Olga, por exemplo, pareça discreta e sutil por comparação), os diálogos previsíveis (coisas do tipo "Quero ver seu rosto bem de perto para poder matá-lo no campo de batalha!"), os velhos chavões que não convencem mais ninguém, como situar a ação naquele que seria o último dia de serviço dos cavaleiros, e um grande etc.

Nada disso atrapalha a diversão de assistir a mais um grande épico, que no entanto, com perdão do trocadilho, não vai fazer história.



Escrito por will robinson às 18h06
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Em O talentoso Ripley, o genial e pouco compreendido filme que Anthony Minghella adaptou do livro de Patricia Highsmith, Matt Damon interpreta o papel-título como um homem aficcionado por música clássica, mas que finge gostar de jazz a fim de conquistar sua presa, o boa-vida Dickie (Jude Law). O espectador entendia que Ripley, um homem mais afeito às regras da música clássica que às improvisações do jazz, tinha no entanto que aprender a improvisar se quisesse ser bem sucedido em seus intentos.

Em Colateral, Tom Cruise interpreta Vincent, um assassino profissional que, durante uma madrugada, "contrata" os serviços de um desavisado motorista de táxi, Max (Jamie Foxx), para levá-lo aos cinco endereços de Los Angeles onde deve realizar seus serviços. Max é fã de música clássica e Vincent gosta tanto de jazz que é capaz de recitar a biografia de Miles Davis enquanto realiza um de seus "serviços". É feita aqui a mesma relação entre a música e a personalidade que em O talentoso Ripley, com a diferença de que isso aqui é dito com todas as letras pelo personagem de Cruise: "Você tem que aprender a improvisar, Max". E Max aprende, lógico, se quiser salvar sua pele. É como se o roteirista Stuart Beattie não confiasse na inteligência do espectador e quisesse entregar tudo mastigadinho, como aliás é a tendência no filme hollywoodiano em geral. Engraçado é ver a mesma crítica que recebeu tão mal o ótimo filme de Minghella estar agora elogiando tanto o thriller de Michael Mann.

Não é que Colateral seja um mau filme. Tem a melhor atuação de Tom Cruise desde Jerry Maguire, o que não é pouca coisa, considerando que o superastro tem uma grande tendência ao chamado overacting, aquela mania de certos atores de representarem sempre um tom acima do necessário. Aqui, ao contrário, Cruise está discreto e convincente como um assassino profissional, frio e cínico como convém ao seu métier. Com exceção do final do filme, onde por força do roteiro ele acaba virando uma espécie de Exterminador do futuro -- um robô quase indestrutível.

Todo o elenco está muito bem. Eu nem mesmo cheguei a reconhecer Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo e Javier Bardem antes dos créditos finais: ponto para Michael Mann, que se revela um ótimo diretor de atores. O problema é que o filme tem uma certa pretensão a ser o Taxi driver dos anos 2000, sem ter estofo para isso. Recheado de diálogos pseudo-filosóficos entre os dois protagonistas, Colateral é um bom filme de ação, que prende a atenção até o final, embora não traga nenhuma surpresa para quem já viu algum filme de suspense na vida. Se você não esperar nada além disso, vai se divertir bastante.



Escrito por will robinson às 17h44
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Ao fim de Olga, tive a mesma sensação que tive ao assistir Diários de motocicleta, filme que não cheguei a comentar aqui. Há uma enorme distância estética entre os dois filmes: enquanto o filme de Walter Salles prima pela elegância e pela sutileza que caracteriza toda a obra do diretor, Jayme Monjardim escolheu fazer de sua adaptação do livro de Fernando Morais sobre a revolucionária Olga Benario Prestes um melodrama. Um melodrama sem nenhuma conotação pejorativa, no sentido estético mesmo. Daí os abundantes closes, a trilha sonora onipresente e redundante, as intermináveis cenas de neve ou chuva caindo na janela. Para se gostar de Olga, é preciso aceitar essa opção estética do diretor e apreciar as qualidades que o filme tem: a qualidade técnica é perfeita, nem dá pra acreditar que todas as cenas do filme, sejam em Moscou, em Berlim ou em campos de concentração em pleno inverno, foram gravadas no Rio. A atuação de todo o elenco é impecável, e o roteiro de Rita Buzzar é extremamente fiel ao livro, o qual por sua vez é fiel aos fatos históricos.

E a história de Olga se presta mesmo a um tratamento de melodrama, afinal quantas mulheres tiveram a trajetória dela, de adolescente judia burguesa a revolucionária comunista treinada em Moscou a guarda-costas de Luis Carlos Prestes (Caco Ciocler no filme) a mãe do filho dele a prisioneira de campo de concentração nazista? Monjardim fez um filme pra chorar, e seria preciso ter um coração de pedra para não se comover com a cena em que a filha de Olga (Camila Morgado), ainda bebê, é tirada dos braços da mãe desesperada. Mas eu, que terminei de ler o livro um dia antes de ir ver o filme, chorei também ao ler a carta de Olga Benario, escrita por ela ao saber que seria enviada à câmara de gás, que é reproduzida no livro e no filme.

Mas a sensação a que eu me referi lá no começo é o sentimento de que tanto Olga Benario quanto Che Guevara (representado por Gael Garcia Bernal no filme de Waltinho), que viveram em épocas diferentes, têm em comum o fato de terem um sonho e acreditarem nele a ponto de sacrificar suas vidas por ele. Ambos sonharam com um mundo melhor, um mundo sem desigualdades sociais. Não vem ao caso aqui discutir se escolheram ou não o melhor caminho para realizar esse sonho; o fato é que morreram acreditando que um mundo melhor era possível.

E hoje, que sonhos podemos ter? O último sonho que minha geração tinha, a de ver um partido formado por trabalhadores ocupando o poder, um operário sentado na cadeira de presidente da República, se realizou -- e daí? O que mudou de lá pra cá? Não, me perdoem mas não sonho mais.

O que resta então? Resta a dignidade, a dignidade tão bem representada pelo olhar límpido de Camila Morgado nas últimas cenas do filme, e que por si só valem a ida ao cinema: um olhar carregado de dor e sofrimento, mas também de esperança e, principalmente, dignidade. A dignidade de alguém que sabe que vai morrer, e mesmo assim tem consciência de que sua luta valeu a pena, pelo simples fato de ter lutado pelo que acreditava.



Escrito por will robinson às 22h50
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