Lost in Space


Música é meu ar, filmes meu alimento, arte minha vida. Esse é o título deste blog, que eu batizei em inglês não para parecer chique ou deslumbrado, mas simplesmente porque sendo professor de inglês e me expressando nessa língua grande parte do tempo, ela acaba vindo naturalmente em algumas ocasiões.

De qualquer forma, raramente um filme encarnou de forma tão profunda o título deste blog quanto o franco-chinês Balzac e a costureirinha chinesa, que assisti recentemente em Santos num cinema de arte.

A história é a seguinte: durante os anos 70, a Revolução Cultural de Mao Tse Tung (que, como já disse Barbra Streisand, não era nem uma revolução nem cultural) condenou a trabalhos forçados no interior milhares de pessoas acusadas do terrível crime de serem burguesas e/ou intelectuais, e portanto traidoras do comunismo. O filme, baseado num livro autobiográfico do próprio diretor Dai Sijie, mostra dois jovens – Ma (He Liu) e Luo (Kun Chen) – sentenciados à “reeducação” por serem filhos de profissionais liberais: um médico e um dentista. Isolados numa pequena comunidade encravada nas montanhas, os dois garotos se apaixonam pela filha do velho alfaiate da aldeia (Zhijun Cong), que é chamada por eles apenas de “costureinha” (Xun Zhou). Como a garota não sabe ler e se expressa de maneira simplória, os rapazes tomam a si a tarefa de educá-la (no sentido tradicional, não no comunista), e para isso usam os livros proibidos que encontram na bagagem de outro reeducando. Entre esses autores “burgueses” estão clássicos como Tolstoi, Flaubert, Stendhal, Dumas, Victor Hugo, mas é a literatura de Balzac que encanta e seduz a costureirinha, ao ponto de provocar uma transformação na vida dela.

Não é a primeira vez que o cinema mostra a literatura abrindo mentes e transformando vidas – Sociedade dos Poetas Mortos, meu filme preferido de todos os tempos, e  O despertar de Rita são apenas dois exemplos que me vêm à cabeça agora. Mas a literatura não é a única arte homenageada neste filme. Há também a música: um dos garotos, Ma, toca violino e consegue salvar seu instrumento da fogueira ao tocar para aqueles simplórios camponeses uma melodia que ele identifica como “Mozart pensa no Camarada Mao”. Há o próprio cinema: os rapazes têm a tarefa de assistir filmes coreanos no cinema ao ar-livre de um vilarejo vizinho e depois contá-los aos camponeses. Há o teatro, pois as narrações de Luo não podem ser chamadas de outra forma, tornando-se mais interessantes que os próprios filmes que as originaram. E mesmo as roupas simples costuradas pelo velho alfaiate adquirem seu lado artístico quando ele se empolga com a leitura em voz alta que um dos garotos lhe faz de O conde de Monte-Cristo e passa a imprimir símbolos marinhos nas vestimentas de camponeses que nunca viram o mar.

Tudo isso e mais o belo visual do filme fazem de Balzac e a costureirinha chinesa uma festa para os olhos, a mente, a alma e o coração.

Filmes de cabeceira atualizado!



Escrito por will robinson às 17h58
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