Lost in Space


So please be sweet, my chickadee
And when I kiss ya, just say to me
"It's delightful, it's delicious, it's delectable, it's delirious,
It's dilemma, it's de limit, it's deluxe, it's de-lovely"

Logo no início de De-Lovely -- Vida e amores de Cole Porter, vemos um envelhecido Cole Porter (Kevin Kline) sentado ao lado de um diretor (Jonathan Pryce) num velho teatro, assistindo ao que parece ser o ensaio de um musical sobre sua vida -- só que por algum motivo os atores no palco não podem vê-lo nem ouvi-lo. De repente, o diretor grita para o elenco "Atenção! Vamos ensaiar a cena de Paris." E de repente estamos em Paris, num grande baile onde o jovem Cole conhecerá sua futura mulher, a milionária Linda Lee (Ashley Judd). O elenco todo começa a cantar Well, did you evah! e o espectador sente um arrepio de quem está vendo a magia do cinema acontecer na sua frente.

O filme de Irwin Winkler tem vários momentos mágicos como esse, embora não consiga manter a bola lá em cima o tempo todo. O roteiro é centrado na relação heterodoxa entre Cole Porter e sua mulher: embora o compositor fosse homossexual e promíscuo, e a relação de ambos nem sempre tenha sido um mar de rosas, todos os biógrafos concordam que era uma relação de grande amor e respeito mútuo. Mas como era uma relação destinada a nunca ser inteiramente consumada -- muito embora o filme mostre que Linda teria chegado a ficar grávida de Porter, tendo perdido o bebê em seguida -- De-Lovely adquire aos poucos um ar de dramalhão melodramático, e a figura de Linda é um tanto idealizada ao extremo como heroína romântica. O acidente sofrido pelo compositor que o deixou com as duas pernas esmagadas e do qual nunca se recuperou também colabora para que a segunda metade do filme se torne extremamente melancólica. Mas De-Lovely nunca deixa de ser uma cinebiografia digna de um dos maiores compositores de todos os tempos.

 Birds do it,

bees do it

Even educated fleas do it

 Let's do it, let's fall in love

 Agora algumas palavras sobre a parte musical do filme: talvez para atrair a audiência jovem que nunca ouviu falar de Cole Porter, o diretor encheu seu filme de pop stars interpretando clássicos do cantor. Esses números musicais são sempre integrados à trama -- assim vemos Robbie Williams interpretando a canção-título em meio ao casamento dos protagonistas, Alanis Morissette interpretando Let's do it (let's fall in love) num musical do compositor, Vivian Green cantando Love for sale muito apropriadamente numa boate gay e assim por diante, com a exceção de Natalie Cole, que aparece do nada para interpretar a linda Everytime we say goodbye no momento mais triste do filme. Mas o momento musical mais bem-resolvido não pertence a nenhum cantor popular, e sim ao ator especializado em musicais John Barrowman, que interpreta um ator que encontra tanta dificuldade para cantar Night and day que o próprio Cole Porter sobe ao palco para ensiná-lo a se concentrar nas palavras, não na melodia, e começa a cantar a linda canção junto com ele, até que a câmera dá um giro e de repente estamos na estréia do espetáculo e o jovem cantor arrasa na interpretação. Outro momento mágico com que o filme nos presenteia.

 Night and day, you are the one
Only you beneath the moon or under the sun
Whether near to me, or far
It's no matter darling where you are
I think of you
Day and night, night and day

 

No começo dos anos 90 houve um musical feito para a televisão chamado Red Hot and Blue, em benefício de campanhas contra a Aids, no qual vários artistas pop interpretavam canções de Cole Porter em seu próprio estilo. O resultado era deslumbrante: Annie Lennox interpretava Everytime we say goodbye com a alma, o mesmo se aplicando a k.d. lang com So in love, U2 com Night and day e ainda Sinéad O'Connor, Lisa Stansfield, Tom Waits, Neneh Cherry e muitos outros. A diferença daquele projeto para este filme é que em De-lovely os artistas convidados tiveram de criar interpretações que não destoassem da época enfocada, e assim somos obrigados a escutar Alanis Morissette, Sheryl Crow, Lara Fabian e Mick Hucknall, entre outros, tentando dar uma de cantores da Broadway sem ter equipamento vocal nem treinamento para isso. Nesse sentido, quem se sai melhor é o inglês Robbie Williams, que consegue imprimir um pouco de sua própria irreverência à sua interpretação de It's de-lovely sem nunca destoar do resto do filme.

De qualquer forma, a não ser que você seja um purista, o resultado não chega a ofender os ouvidos. De-Lovely é um filme que os amantes da boa música bão querer ver e rever muitas vezes.

Everytime we say goodbye, I die a little,

 Everytime we say goodbye, I wonder why a little,

Why the Gods above me, who must be in the know.

Think so little of me, they allow you to go.

 When you're near, there's such an air of spring about it,

 I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,

There's no love song finer, but how strange the change from major to minor,

Everytime we say goodbye.

(Cole Porter - Everytime we say goodbye)

P.S.: Querem ler um texto lindo e comovente? Pois cliquem aqui e leiam o post de 12 de janeiro, intitulado A perda da garrafa importada.



Escrito por will robinson às 21h12
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Passar as férias na cidade onde crescemos tem suas vantagens e desvantagens. Morei em Santos dos 16 aos 24 anos, ou seja, a passagem de adolescente a adulto. Embora nunca tenha me desligado da cidade, já que meus pais continuam morando aqui até hoje, há ocasiões em que me sinto um velho andando pelas ruas da cidade, pois cada esquina, cada canto, cada paisagem traz inúmeras lembranças de um tempo que não volta mais. Geralmente são lembranças boas, mas às vezes a nostalgia de uma época em que tudo era novidade e a vida inteira estava ainda no horizonte é quase insuportável.

Estava mergulhado nesse estado de espírito, outro dia, quando fui ao shopping com a intenção de assistir um filme. Planejava ver um outro filme, um filme mais adulto, mas de tão mergulhado nas lembranças da adolescência resolvi que a melhor opção no caso era ver Meu tio matou um cara, um filme que trata exatamente desse universo.

Para quem ainda não sabe do que se trata, apesar de toda a divulgação que o filme de Jorge Furtado vem tendo, eis a história: Duca (Darlan Cunha) é um adolescente de classe média numa grande cidade brasileira que não é identificada mas que toma emprestados os cenários de Porto Alegre. Seria um garoto igual a tantos outros se não fosse o único aluno negro na escola em que estuda, o que às vezes provoca um racismo às avessas, como quando os colegas evitam xingá-lo de idiota para não parecerem racistas. Duca é apaixonado pela sua amiga de infância Isa (Sophia Reis, filha do ex-Titã Nando Reis, cuja linda canção Por onde andei está na trilha), a qual por sua vez é gamada no colega bonitão Kid (Renan Gioelli), o qual se mostra bastante interessado nas curvas da personagem de Deborah Secco. Até que um dia o tio de Duca, Éder (Lázaro Ramos), um cara meio atrapalhado que nunca deu certo em nada, aparece na casa do irmão (Ailton Graça) e da cunhada (Dira Paes) dizendo que matou o ex-marido de sua namorada Soraya (Deborah Secco). Enquanto vê o tio ser preso, Duca, um viciado em video-games de mistério, resolve investigar o crime com seus amigos Isa e Kid, por acreditar que o tio estaria na verdade assumindo um crime cometido por sua namorada.

A trama policial nada mais é que um pretexto para o diretor explorar os conflitos amorosos próprios da adolescência e assim atingir o público jovem. Nenhum demérito nisso: trata-se de um filme muito bem-feito, com uma trilha sonora ótima, a qual inclui, só pra variar, alguns covers de Caetano Veloso (uma canção dos Talking Heads e outra do compositor gaúcho Nei Lisboa), mas cujo ponto alto é a ótima Soraia queimada, do baiano Zéu Britto (que esteve no elenco da série Sexo frágil). Também tem o mérito de encaixar aqui e ali alguns comentários sociais, sem nunca cair no tom discursivo ou panfletário. No entanto, em contrapartida Meu tio matou um cara acaba se tornando um típico filme de verão -- leve e gostoso como um sorvete, e rapidamente esquecido.



Escrito por will robinson às 17h55
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