Lost in Space


Assisti a produção francesa Novo numa pré-estréia, ano passado, mas deixei para comentá-lo quando entrasse em cartaz, o que só aconteceu agora em São Paulo.

Graham (o lindo espanhol Eduardo Noriega, que foi um dos protagonistas do argentino Plata quemada) é um espanhol vivendo em Paris. Devido a um acidente que só será esclarecido no final do filme, Graham não tem memória. Assim como o protagonista de Amnésia, Graham não lembra do que aconteceu há dez minutos; mas ao contrário do personagem de Guy Pearce naquele filme, Graham também não tem nenhuma lembrança de quem é ou mesmo sabe seu verdadeiro nome. Sua vida é um eterno "agora", trabalhando no departamento de cópias de uma grande empresa e sofrendo uma espécie de abusos sexuais consentidos por parte de sua chefe, Sabine (Nathalie Richard), e observados de longe por Fred (Eric Caravaca), que um dia já foi o melhor amigo de Graham, embora este não se lembre disso e esqueça os abusos da chefe depois de alguns minutos.

Este estado de coisas dura até que Graham conhece sua nova colega Irène (Anna Mouglalis), por quem sente uma imediata atração. A atração é recíproca e os dois iniciam um estranho e intenso relacionamento, com Irène deslumbrada porque com Graham, cada vez é como a primeira vez. O espanhol, por seu lado, sente tanta necessidade de manter essa relação que começa a fazer força para reter Irène em sua memória por mais e mais tempo. A francesa, que contra a sua própria vontade começa a se apaixonar, se ressente de não poder ter com ele aqueles momentos compartilhados que no futuro formariam a memória afetiva do casal. Ela então começa a tentar descobrir mais sobre quem é aquele homem, e com ela o espectador.

Há algo em comum entre o filme de Jean-Pierre Limosin e o lindo filme de Michel Gondry, Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Naquele filme, Jim Carrey tomava a decisão consciente de esquecer sua amada Kate Winslet, enquanto seu subconsciente lutava para mantê-la bem viva na lembrança. Em Novo, Graham tenta conscientemente não esquecer a mulher por quem se apaixonou, usando alguns dos mesmos estratagemas de Guy Pearce em Amnésia, como escrever o nome da amada no próprio corpo.

A diferença entre Novo e Amnésia é que, enquanto o filme de Christopher Nolan se fixava no suspense, Novo é um filme romântico. Mas não romântico-meloso e sim um romântico extremamente sensual, que no fundo tenta responder àquela pergunta irrespondível: "O que é o amor?" A mesma pergunta feita pela menina Maria (Carolina de Oliveira) ao amigo interpretado por Gero Camilo na belíssima minissérie Hoje é dia de Maria, junto com outras perguntas cabeludas como "De onde viemos e para onde vamos?", e para as quais o amigo, em sua simplicidade, dá a única resposta possível: "Maria, essas perguntas são feitas só para serem perguntadas, nunca respondidas." Mas isso não impede que a gente continue tentando respondê-las, e no filme a tentativa de definir esse sentimento passa não só pelo amor romântico-sensual mas também pelo amor incondicional de um filho (Lény Bueno) por seu pai -- um pai que não lembra dele, mas nem por isso deixa de tratá-lo com um carinho talvez instintivo.

Novo é um filme esteticamente muito bonito. Não só todo o elenco, homens, mulheres e crianças, é lindo e fotogênico, também a trilha sonora é notável e as locações mostram uma Paris longe dos cartões postais -- não espere ver ali a Torre Eiffel ou qualquer outro símbolo da Cidade Luz que você esteja acostumado. E há cenas de intensa beleza em Novo. Gosto muito, por exemplo, da cena em que pai e filho se encontram na praia -- o pai literal e figurativamente despido para enfim se lembrar do garoto que é seu. E também adoro a cena na garagem de um shopping em que Graham, tentando sair do estacionamento mas sem achar seu ticket, simplesmente dá marcha-a-ré para tomar impulso e arrebenta a cancela com seu carro; e Irène, que o observava de longe em seu próprio carro com o ticket dela na mão, faz o mesmo. Pois talvez o amor passe por aí -- seguir o impulso do momento e deixar o resto pra lá.

Este é um filme que eu definitivamente vou querer ver de novo, antes que me esqueça dele.



Escrito por will robinson às 19h57
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